Uma excelente aula do professor Olavo de Carvalho:
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Epistemologia Agônica e Disfuncionalidade Humana: um ensaio de teologia pessimista
"Não há hoje praticamente ninguém que não esteja possuído da intenção pueril de ganhar a simpatia de um público. É a atitude que tomam as crianças por traumatismo da sua debilidade. O escritor quer agradar, o político precisa de agradar, o metafísico aspira a agradar. Essa subserviência que se instala numa fraude de desafecção, de impune demagogia, acaba por institucionalizar-se na pura superficialidade. E marca a agonia de uma cultura. A graça, contrário da exibição, alma sincera que persuade, desaparece. A civilização torna-se um método unicamente concebido para sobreviver.
Ao mesmo tempo que se nivela a inteligência – coisa que não se reparte senão fazendo-a produzir de maneira ilimitada – faz-se da timidez uma esperança. A cultura tornou-se matreira e o espírito, em vez de vigilante, fez-se opinioso."(1)
Meu objetivo neste paper é introduzir uma reflexão acerca do valor crítico que tem a atividade de investigação do fenômeno religioso. Poucos objetos de pesquisa são vítimas de tanta distorção quanto a religião. Penso que tal fato descreve na realidade um problema de concepção de mundo: a cosmovisão religiosa – ainda que dito de forma muito abrangente – parece entrar em frontal choque com aquela que define o advento da "modernidade". Não vou entrar nos meandros dessa discussão pois esta é já "quase" senso comum: a orfandade do ser humano moderno descreve sua solidão cósmica assim como sua (festejada) liberdade pós-adâmica. Com a mecânica moderna, passamos de um mundo como livro que revela seu autor a espaços infinitos de escuridão e silêncio, presos na matemática indiferente do átomo. O procedimento usual nesta "modernidade" é a redução do fenômeno religioso a alguma de suas mediações, psicológicas ou sociais.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Um Punhado de Pó
por Luiz Felipe Pondé
Pois quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante
os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra?
Eclesiastes 6,12
os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra?
Eclesiastes 6,12
Abertura
O Eclesiastes deixa claro que o Deus de Israel não gosta de covardes.
Ao dizer isso, não pretendo erigir-me em especialista em Bíblia, no sentido de alguém que busque a todo o custo a literalidade histórica dos textos ou queira fazer a arqueologia de cada palavra; também não o sou no sentido de alguém que aplique cada versículo às incongruências da vida a título de operação salvífica; nem pretendo falar aqui a partir de alguma “burocracia da objetividade”.
Quem sou, então? Penso encontrar-me na mesma posição do comum dos mortais que procuram um sentido pessoal na leitura das Escrituras, e que eventualmente chegam à conclusão de não passarem daquilo que em inglês se chama suffering jokers - talvez um daqueles fools, os bobos da corte ou “loucos” que, mascarados sob o absurdo do que falam, às vezes têm mais a dizer sobre o real do que alguns pretensos sábios.
Quando me pergunto quem escreveu o Eclesiastes – para além de a resposta concreta já ter variado desde Salomão ou alguém de sua elite até qualquer membro de qualquer elite na Palestina ou fora dela por volta do século III a.C. -, assumo que foi Deus. Não o faço por razões confessionais (uma das vantagens da conversão a Atenas é a liberdade de espírito perante qualquer ortodoxia), mas antes de tudo pelo “efeito filosófico” da idéia de Deus, que me permite ver no texto uma mensagem dAquele que tudo sabe e tudo pode. Nessa mensagem descubro então uma análise precisa da condição humana que, além do mais, é capaz de despertar uma emoção profunda, uma emoção que o Antigo Testamento sempre descreve como oriunda das entranhas do homem.
sábado, 6 de agosto de 2011
E-Book: "A Vida Intelectual" de Antonin-Gilbert Sertillanges
Grande livro do padre Antonin-Gilbert Sertillanges (1863 – 1948). Uma magnífica reflexão acerca do papel do pensamento e do pensador no mundo. Segue um trecho e, logo depois, o link para download:
Eis-me aqui, homem do século XX, contemporâneo dum drama permanente, testemunha de
confusões como porventura o mundo nunca presenciou desde que os montes surgiram e os
mares foram atirados para seus antros. Que fazer por este século arquejante? Mais do que
nunca, o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. O mundo corre
perigo por falta de máximas de vida. Encontramo-nos num comboio que desfila a toda a
velocidade, e não há sinalização, nem agulheiros. O planeta não sabe para onde vai, a sua lei
abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol?
mares foram atirados para seus antros. Que fazer por este século arquejante? Mais do que
nunca, o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. O mundo corre
perigo por falta de máximas de vida. Encontramo-nos num comboio que desfila a toda a
velocidade, e não há sinalização, nem agulheiros. O planeta não sabe para onde vai, a sua lei
abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol?
O que digo não visa a estreitar o campo da investigação intelectual, nem a confiná-lo no
estudo exclusivamente religioso. O decurso do livro o mostrará. Já disse que toda a verdade é
prática, que toda a verdade salva. Mas indico um espírito, e este espírito exclui qualquer forma
de diletantismo.
estudo exclusivamente religioso. O decurso do livro o mostrará. Já disse que toda a verdade é
prática, que toda a verdade salva. Mas indico um espírito, e este espírito exclui qualquer forma
de diletantismo.
Exclui também certa tendência arqueológica, certo amor do passado que se desinteressa das
dores actuais, certa estima do passado que parece ignorar a presença universal de Deus. Nem
todos os tempos valem o mesmo, mas todos os tempos são tempos cristãos, e há um que para
nós e praticamente os ultrapassa a todos: o nosso. Para ele são os nossos recursos nativos, as
nossas forças de hoje e as de amanhã, e por conseguinte os esforços que lhes devem
corresponder. Não nos assemelhemos aos que dão sempre a impressão de pegar às borlas do
caixão nos funerais do passado. Utilizemos, como vivos, o valor dos mortos. A verdade é
sempre nova. Todas as virtudes antigas querem reflorescer, exactamente como a erva da
madrugada beijada pelo orvalho. Deus não envelhece. É mister ajudá-lo a renovar, não os
passados enterrados, nem as crónicas extintas, mas a eterna face da terra.
dores actuais, certa estima do passado que parece ignorar a presença universal de Deus. Nem
todos os tempos valem o mesmo, mas todos os tempos são tempos cristãos, e há um que para
nós e praticamente os ultrapassa a todos: o nosso. Para ele são os nossos recursos nativos, as
nossas forças de hoje e as de amanhã, e por conseguinte os esforços que lhes devem
corresponder. Não nos assemelhemos aos que dão sempre a impressão de pegar às borlas do
caixão nos funerais do passado. Utilizemos, como vivos, o valor dos mortos. A verdade é
sempre nova. Todas as virtudes antigas querem reflorescer, exactamente como a erva da
madrugada beijada pelo orvalho. Deus não envelhece. É mister ajudá-lo a renovar, não os
passados enterrados, nem as crónicas extintas, mas a eterna face da terra.
Clique Aqui para download do livro
terça-feira, 14 de junho de 2011
Meu irmão Kierkegaard
Texto de Luiz Felipe Pondé, Folha de São Paulo (13/06/2011)
Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.
O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o "ennui" (angústia, tédio) e o "divertissement" (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).
O filósofo dinamarquês afirma que nós somos "feitos de angústia" devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.
Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como "condenação à liberdade", justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.
O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos. Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas "leis": o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama. A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica. Deste "solo da existência" (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro "A Repetição", é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida "correta" (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando "saltamos na fé", sem garantias de salvação. Mas existe também o "abismo do amor".
Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.
Seu livro "As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos" (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.
A ideia que abre o livro é que o amor "só se conhece pelos frutos". Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua "visibilidade" apenas prática. Angústia e amor são "virtudes práticas" que demandam coragem. Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Seu livro "As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos" (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.
A ideia que abre o livro é que o amor "só se conhece pelos frutos". Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua "visibilidade" apenas prática. Angústia e amor são "virtudes práticas" que demandam coragem. Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como "lei da alma"), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas: "Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor... Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber." Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Mito de Sísifo de Alber Camus
Confiram um trecho desse magistral ensaio, abaixo um link para download do livro em PDF.
Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.
Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com as ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade valia a fogueira. Se for a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão de morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou os que multiplicam por dez toda a paixão de viver, provavelmente só há dois métodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que pode nos permitir aquiescer ao mesmo tempo à emoção e à clareza. Em um assunto simultaneamente tão modesto e tão carregado de patético a dialética clássica e mais sábia deve, pois dar lugar — convenhamos — a uma atitude intelectual mais humilde e que opera tanto o bom senso como a simpatia.
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