Mostrando postagens com marcador Demétrio Magnoli. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demétrio Magnoli. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
sábado, 4 de agosto de 2012
Nada a declarar
No inverno de 1077, o imperador Henrique IV fez a peregrinação a
Canossa, curvando-se perante o papa Gregório VII, que o excomungara.
Quase um milênio depois, Lula conheceu a sua Canossa, peregrinando com
Fernando Haddad a tiracolo até o jardim da mansão de Paulo Maluf, que
expôs publicamente sua troca de afagos com a dupla petista. O cargo
federal entregue por Dilma Rousseff a um protegido de Maluf não foi o
preço, mas apenas a parcela de superfaturamento cobrada pelo minuto e
meio de tempo de TV que o PP vendeu ao candidato lulista à Prefeitura de
São Paulo. Conhecedor do valor das obsessões, Maluf impôs a Lula a
quitação da dívida por um gesto de humilhação maior que o experimentado
pelo soberano do Sacro Império: o papa, afinal, dispunha de poder
incomparavelmente superior ao do fugitivo da Interpol.
Luiza Erundina suportaria a aliança com o PP, mas não tolerou a
"forma" - a simbologia - que cercou o compromisso. Ela se retirou da
chapa à Prefeitura e acusou Lula de uma traição "a princípios". É um
recurso de autoilusão, tão patético quanto suas declarações anteriores,
que invocavam a "luta pelo socialismo" para justificar sua parceria com
Haddad. O "princípio" exclusivo de Lula são os interesses de seu sistema
de poder. O lulismo já celebrou Jader Barbalho, José Sarney e Fernando
Collor: o congraçamento com Maluf se inscreve numa linha de coerência e
só pode surpreender observadores que se ausentaram do planeta durante a
última década.
Antonio Donato, coordenador da campanha de Haddad, reagiu ao episódio
criticando uma suposta incoerência de Erundina, não de Lula: "Quem quer
mudar o Brasil se preocupa com o conteúdo, e não com a forma". O seu
"realismo", difundido entre os dirigentes petistas, vai muito além do
"realismo" de José Serra, que queria a aliança com o PP (e se aliou com
Valdemar Costa Neto, o réu do mensalão que comanda o PR), mas não se
sujeitou à exigência de avalizar publicamente a figura de Maluf. Donato
está dizendo que a Canossa de Lula vale a pena, se contribui em algo
para um projeto de poder já esvaziado de qualquer sentido substantivo de
mudança.
Todo o incidente seria apenas tedioso, não fosse a circunstância de
que Erundina ficou só no seu protesto quixotesco. Os intelectuais de
esquerda que apoiam Haddad não ergueram a voz para questionar, analisar
ou explicar o gesto de Lula. Nos dias seguintes à humilhação do jardim,
descortinou-se um resultado de dez anos de poder lulista: a morte da
crítica de esquerda.
Antonio Cândido, Gabriel Cohn e Eugênio Bucci preferiram nada
declarar. Mario Sergio Cortella sugeriu "tocar em frente", após uma
"fase de reflexão", mas não ofereceu nenhuma "reflexão". Paul Singer
justificou o silêncio como um dever político: "Não tenho interesse em
tornar pública qualquer opinião. Vai ficar entre mim e mim mesmo".
Marilena Chauí optou por emular o antigo ministro da Justiça da
ditadura, Armando Falcão, cujo célebre "nada a declarar" veiculava seu
rancor contra a imprensa: "Não vou dar entrevista, meu bem. Não acho
nada. Nadinha. Até logo".
Ouvi, informalmente, de uma das "intelectuais tucanas" que se
converteram aos encantos da candidatura de Haddad, uma versão da
justificativa medíocre posta em circulação por dirigentes petistas:
"Maluf por Maluf, Serra também queria". Emir Sader, que dubla como
intelectual, mas opera, efetivamente, como militante, expressou o
sentido pragmático do denso silêncio geral: "O fundamental é derrotar a
'tucanalha' em São Paulo. Eu posso gostar ou não do Maluf, mas vou fazer
campanha para o Haddad do mesmo jeito".
Não é verdade que os intelectuais de esquerda jamais criticaram Lula
ou o PT. A crítica existia, pública e intensa, antes da chegada de Lula
ao Planalto. Continuou depois, até o "mensalão", um pouco mais amena,
dirigida contra a escolha de José Alencar para a vice-presidência e as
"políticas mercadistas" de Henrique Meirelles no Banco Central. Os
intelectuais de esquerda justificaram sua adesão ao governo Lula sob a
premissa de que, aos poucos, o lulismo se moveria para a esquerda,
rompendo a teia de "alianças pragmáticas" indispensáveis no início do
"processo". A profecia não se cumpriu - e, ao contrário, o lulismo se
identificou cada vez mais com os aliados conservadores. A crítica,
contudo, experimentou progressiva rarefação, até desaparecer.
Quanto mais o lulismo se adapta à ordem tradicional, menos é
criticado pelos intelectuais de esquerda. A equação, superficialmente
paradoxal, solicita explicação. Uma sedutora hipótese de solução é
imaginar que tais intelectuais estão imbuídos pelo nobre sentimento de
"patriotismo partidário". Instado a se subordinar às decisões de um
partido comunista que transitava para o controle de Stalin, o dissidente
Trotsky invocou a marcha da História rumo ao Futuro: "Certo ou errado, é
o meu Partido. Não se pode ter razão contra o Partido ou fora dele".
Singer quase repetiu Trotsky - e deve ter pensado na frase do
revolucionário russo ao pronunciar a sua, destituída de cores épicas.
A hipótese, porém, não tem sustentação lógica ou histórica. Trotsky
não era um intelectual acadêmico, mas um dirigente bolchevique. Na
Rússia, desenrolava-se uma revolução social na moldura da crise geral
europeia aberta pela Grande Guerra, não uma eleição municipal no quadro
da democracia. A explicação prosaica para a renúncia à crítica é que os
intelectuais de esquerda brasileiros encontraram seus lugares à sombra
da frondosa árvore do poder lulista. Eles se acostumaram com os
benefícios profissionais e, sobretudo, com as "rendas de prestígio"
auferidas pela proximidade do governo. No terceiro mandato lulista, e
diante da perspectiva de um quarto, interiorizaram como hábitos as
normas de elogiar os poderosos e sustar, na hora certa, a inclinação à
crítica. A evidência disso é obra de Maluf.
Por Demétrio Magnoli
sábado, 12 de maio de 2012
Um texto marginal
"Basta ver o caráter marginal daqueles que se opõem ferozmente a
essas políticas...". A frase, escandida pelo ministro Joaquim Barbosa
num aparte casual, contém a chave para a compreensão da decisão unânime
do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as políticas raciais. Os juízes
da Corte Maior não se preocuparam com a Constituição, mas unicamente com
o lugar ocupado pelos defensores e pelos opositores das cotas raciais
na cena política nacional. Eles disseram "sim" ao poder, definindo seu
próprio lugar no grande esquema das coisas.
Cortes Supremas servem para interpretar o texto constitucional, nos
inúmeros casos em que a letra da Lei não oferece resposta explícita. No
artigo 5.º, a Constituição afirma que "todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza". No artigo 19, que "é vedado à
União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios criar
distinções entre brasileiros ou preferências entre si". No artigo 208,
que "o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia
de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação
artística, segundo a capacidade de cada um". A letra da Lei é explícita,
cristalina: dispensa interpretação. O STF, simulando interpretá-la,
reuniu-se em assembleia constituinte e revogou o princípio da igualdade
perante a lei. Os juízes encarregados de zelar pela Constituição
qualificaram-na como um texto marginal.
O princípio da igualdade perante a lei está formulado nas
Constituições americana e indiana em termos similares aos da nossa. Nos
EUA, desde 1978 a Corte Suprema proferiu decisões cada vez mais
contrárias às políticas de preferências raciais. Na Índia, logo após a
independência, a Corte Suprema vetou tais políticas - e então o
Congresso emendou o texto constitucional, descaracterizando o princípio
da igualdade dos cidadãos. Por que, em contraste flagrante, os juízes do
STF preferiram reescrever a Constituição de forma a inscrever a raça na
lei?
No Brasil, a igualdade legal dos cidadãos é um "princípio fraco",
introduzido nas Constituições por imitação. O "princípio forte" sempre
foi o das relações pessoais, fundamento real dos intercâmbios das elites
econômica, política e intelectual. Na lógica do Direito, o princípio da
igualdade funciona como fonte dos direitos e garantias individuais. Tal
conexão explica a importância atribuída ao "princípio fraco" na
Constituição de 1988: o gesto político e jurídico de ruptura com o ciclo
da ditadura militar era a promessa de um novo início, isento das
máculas do passado. O STF está dizendo que aquele gesto representou um
desvio de percurso - e já se esgotou. De certo modo, os juízes têm
razão: bem antes da sessão de julgamento das cotas raciais, as
principais correntes políticas do País imolaram o princípio da igualdade
no altar de seus compromissos com as ONGs racialistas, que são minorias
organizadas e influentes.
O conceito de preferências raciais adquiriu estatuto oficial no
governo Fernando Henrique Cardoso, por meio do Programa Nacional de
Direitos Humanos de 1996. No governo Lula a noção genérica de
"discriminação positiva" desdobrou-se na política de cotas raciais.
Dilma Rousseff prometeu, no início de sua campanha presidencial,
expandir os programas de cotas para a pós-graduação. José Serra,
candidato da oposição, manteve silêncio absoluto sobre as políticas de
raça, avalizando tacitamente a orientação do governo Lula. A cooperação
objetiva entre os grandes partidos rivais e a continuidade histórica das
iniciativas racialistas na transição de um governo para o outro formam o
pano de fundo da decisão unânime do STF. Eis a razão por que Joaquim
Barbosa, como seus colegas, enxerga na Constituição um texto "marginal".
O estandarte da igualdade legal dos cidadãos condensa a narrativa de
uma sociedade contratual formada por indivíduos livres das amarras do
sangue e da tradição. A narrativa é a praça histórica comum aos liberais
e aos socialistas. Os primeiros ergueram o princípio da igualdade no
combate aos privilégios de sangue do Antigo Regime. Os segundos
enxergaram nele a ferramenta das lutas pelo voto universal e pela
liberdade de associação e de greve. No Brasil, contudo, essa história
quase nada significa para os partidos que representam as duas correntes.
O STF que aboliu o princípio da igualdade é a Corte Maior de um país
onde José Sarney foi declarado um personagem acima da lei, Fernando
Collor pontifica numa CPI sobre a corrupção e Sérgio Cabral protagoniza
cenas dignas do Antigo Regime no palco apropriado da Cidade Luz.
Na sessão de julgamento do STF, o relator, Ricardo Lewandowski,
alvejou sem rodeios o artigo 5.º da Constituição, atribuindo ao
princípio da igualdade um sentido meramente "formal". O mesmo relator
comandou, em 2009, a rejeição do pedido de instauração de processo
contra o ex-ministro Antônio Palocci por violação do sigilo bancário do
caseiro Francenildo Costa. Meses depois, a Caixa Econômica Federal
informou em juízo que a violação decorreu de ordem emitida por Palocci. O
escárnio do "princípio fraco", da igualdade legal, serve sempre ao
desígnio de instaurar o império do "princípio forte", das relações
pessoais.
O juiz Marco Aurélio Mello exprimiu a aspiração de generalização das
políticas de cotas, como querem as ONGs racialistas. Num país em que, ao
contrário dos EUA ou da África do Sul, jamais existiu segregação racial
oficial, não há fronteira objetiva separando "brancos" de "negros". A
difusão das preferências raciais nos concursos públicos e no mercado de
trabalho em geral demanda uma série imensa de atos legais e
administrativos de rotulação racial das pessoas. Em nome do combate ao
racismo, o Estado deve fabricar raças em escala nacional, disse o STF.
No afã de descartar a Constituição, aquele texto marginal, nenhum deles
registrou a contradição explosiva entre meios e supostos fins.
Por Demétrio Magnoli*
* SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMETRIO.MAGNOLI@UOL.COM.BR
quinta-feira, 1 de março de 2012
Heraldo, a cor e a alma
A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como "negro de alma branca" e escreveu que o jornalista "não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde".
Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades - na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.
Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. "Negro de alma branca", uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do "traidor da raça". No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.
O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como "branco de alma negra", pois uma "alma negra" não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua "raça". Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como "branco de alma branca", embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria "raça", ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), "pai fundador" do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um "branco de alma branca", pela promoção do "orgulho racial" dos arianos.
Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como "um negro da Casa Grande da Rede Globo", que "não dignifica a sua ancestralidade e origem" pois "nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas". No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.
O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos "desviantes". O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista - mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de "negros de alma branca" pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.
A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais - e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos - efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.
Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da "raça branca" são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da "raça negra" dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus "líderes raciais", os guardiões da "ancestralidade e origem". Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.
*SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMAG@UOL.COM.BR
domingo, 29 de janeiro de 2012
Havel, cebolas e cenouras
Confiram o excepcional artigo de Demétrio Magnoli*:
Fez ontem um mês que morreu Vaclav Havel. No dia seguinte ao enterro, 80 mil manifestantes reunidos em Moscou interromperam por um minuto o protesto contra Vladimir Putin para homenageá-lo em silêncio. Eles perceberam que o mundo ficou mais pobre sem Havel. O intelectual, dramaturgo e dissidente checo ensinou, ao longo de uma vida, que o contrário do comunismo não é o capitalismo, mas a verdade.
Havel não era um dramaturgo excepcional, nem um ensaísta genial. Contra o cenário fulgurante da vida literária, artística e filosófica da Europa Central, suas peças e seus textos parecem, com apenas uma exceção notável, experimentos secundários. "A obra mais importante de Havel é sua própria vida", disse o romancista Milan Kundera. E, no entanto, ele fez mais diferença que qualquer outro.
A dissidência comunista nasceu junto com a consolidação do poder bolchevique na Rússia. Antes de Hannah Arendt iluminar os paralelos entre o comunismo e o nazismo (Origens do Totalitarismo, 1951), figuras como Victor Serge (É meia-noite no século, 1939), Arthur Koestler (O Zero e o Infinito, 1940) e George Orwell (A Revolução dos Bichos, 1945) cortaram o corpo apodrecido do sistema soviético com o bisturi da literatura e escancararam a natureza do totalitarismo. Havel inspirou-se nesses predecessores para formular o seu diagnóstico: o mal manifestava-se como linguagem - e, justamente por isso, contaminava a sociedade inteira.
O Poder dos Sem-Poder, de 1978, é o grande voo ensaístico de Havel. Escrito logo após um encontro furtivo com o dissidente polonês Adam Michnik, o texto desvendou o segredo do poder comunista tardio. O terror stalinista, com seu cortejo indescritível de opressão e brutalidade, era coisa do passado. No lugar dele se instalara um sistema "pós-totalitário", expressão que não pretendia conotar a superação do totalitarismo, mas uma acomodação essencial das engrenagens de controle da sociedade. O fundamento do sistema residia na mentira ritualizada.
Por que o administrador da quitanda pendura na vitrine, junto com as cebolas e as cenouras, um cartaz com os dizeres "trabalhadores do mundo, uni-vos!"?, indagou Havel. Ele não estava "genuinamente entusiasmado com a ideia da unidade dos trabalhadores do mundo". O cartaz fora "enviado da sede da empresa ao verdureiro, junto com as cebolas e cenouras". O homem expunha-o porque "agia assim há anos", "todos fazem o mesmo" e "tais coisas devem ser feitas para que tudo corra bem na vida". O pós-totalitarismo comunista operava com base no hábito, na imitação, no medo e num interesse pessoal mesquinho. A doutrina que anunciara a libertação de toda a humanidade se conservava no poder pelo estímulo organizado das inclinações humanas à subserviência, à hipocrisia e à covardia. O poder comunista pereceria quando as pessoas sem poder simplesmente se recusassem a desempenhar os papéis deploráveis que lhes haviam sido designados.
Na superfície, não parece existir nenhum traço comum entre Havel e o polonês Leszek Kolakowski. O checo nunca foi comunista; o polonês ingressou no partido na juventude, destacando-se como brilhante promessa. Por motivos políticos, as portas da universidade fecharam-se ao checo; pelas mesmas razões, abriram-se de par em par ao polonês, que cursou filosofia e, em 1950, ganhou uma viagem à "pátria do socialismo". A visita teve consequências inesperadas, pois aquela fresta para a "desolação material e espiritual" da URSS quebrou sua fidelidade ideológica, convertendo-o em dissidente. Mesmo nessa condição, porém, um abismo o separava de Havel: o polonês entregou-se à crítica da filosofia marxista da História, transitando numa esfera teórica distante dos interesses intelectuais do checo.
Entretanto, um fio profundo une Kolakowski a Havel. De volta à Polônia, Kolakowski publicou um ensaio devastador que contestava o núcleo do pensamento marxista. A História não é previsível, escreveu, delineando um raciocínio que o conduziria à conclusão de que o stalinismo não representava uma aberração do comunismo, mas a sua plena realização. O dogma da previsibilidade da História é a fonte da noção de que os destinos da sociedade devem ser depositados no partido. Tal noção, por sua vez, esculpe a linguagem política da mentira, privando a sociedade de valores genuínos e esvaziando a vida pública de qualquer sentido cívico.
A Revolução de Veludo, de 1989, transferiu um relutante Havel dos bastidores do Teatro Lanterna Mágica para o Castelo de Praga. No cargo quase simbólico de presidente da Checoslováquia, ele convidou Frank Zappa para tocar no concerto "Adeus ao Exército Soviético", última performance pública do músico. Também evitou que a separação entre a República Checa e a Eslováquia degenerasse nos horrores do conflito étnico. Há três anos, como ato político derradeiro, Havel inspirou a Declaração de Praga, que classifica o comunismo, ao lado do nazismo, como causa dos mais terríveis crimes do século 20. O documento solicita que o 23 de agosto, data da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, seja transformado em dia de memória das vítimas dos dois totalitarismos paralelos.
Dias atrás, a blogueira cubana Yoani Sánchez divulgou um apelo em vídeo à presidente Dilma Rousseff. Yoani foi convidada para a estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Dado Galvão, na Bahia, em fevereiro, mas o governo cubano continua a negar-lhe uma autorização de viagem. Ela não pode viajar porque, como ensinou Havel, escolheu "viver na verdade", recusando-se a seguir o roteiro escrito pelo pós-totalitarismo. Todos nós podemos erguer um brinde em memória do dissidente checo. Dilma tem a oportunidade de homenageá-lo com um gesto especial: intercedendo em favor de Yoani. Nossa presidente fará uso desse privilégio ou preferirá celebrar uma mentira emoldurada por cebolas e cenouras?
*SOCIÓLOGO, DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
No Enem, a saudação ao Duce
Por Demétrio Magnoli
Questão do Enem, 2001: "A Lei 9.491, de 9 de setembro de 1997, criou o Programa Nacional de Desestatização, que reordena a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público . A referida lei representa um avanço não só para a economia nacional, mas também para a sociedade brasileira, porque (...)". Resposta, segundo o gabarito: "amplia os investimentos produtivos e a riqueza geral da nação".
A questão acima é uma invenção minha: nunca foi proposta num Enem. Mas o que diria Fernando Haddad se, no governo FHC, o MEC a tivesse inserido num exame nacional que decide o futuro universitário de milhões de estudantes brasileiros? Desconfio que, coberto de razão, ele classificaria a prova como um gesto de covardia autoritária pelo qual os candidatos seriam forçados a se curvar à doutrina política do poder de turno, repetindo compulsoriamente o credo expresso no site do Planalto sob pena de exclusão do ensino superior. Pois o atual ocupante do MEC acaba de produzir um gesto assim, indigno de uma nação democrática, na mais recente edição do Enem.
Eis o texto da questão: "A Lei n.º 10.639, de 9 de janeiro de 2003, inclui no currículo dos estabelecimentos de ensino (...) a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira e determina que o conteúdo programático incluirá o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil (...) . A referida lei representa um avanço não só para a educação nacional, mas também para a sociedade brasileira, porque (...)". Resposta, segundo o gabarito: "impulsiona o reconhecimento da pluralidade étnico-racial do país". Sob Haddad, o Enem converteu-se em campo de reeducação ideológica para jovens. Diante disso, pouco significam os sucessivos espetáculos de incompetência gerencial que o atormentam.
A lei que os candidatos estão obrigados a celebrar não é uma ferramenta de combate ao preconceito racial, mas a condensação da doutrina racialista. Seu pressuposto é a divisão da humanidade em raças. Segundo ela, as pessoas não são indivíduos mas componentes de "famílias raciais" definidas por ancestralidades supostas e involucradas em culturas singulares. As escolas, prega a lei, devem ensinar uma história particular do "povo negro" (por oposição implícita ao "povo branco"). Desde a mais tenra idade, os estudantes aprenderiam a enxergar a si mesmos como participantes de uma comunidade racial.
O gabarito da questão está errado e inexiste resposta correta entre as alternativas apresentadas no exame. Mas a resposta certa, segundo o próprio MEC, consta de um parecer do Conselho Nacional de Educação no qual se explica que a lei "deve orientar para (...) o esclarecimento de equívocos quanto a uma identidade humana universal". Tal resposta não aparece entre as alternativas, pois ela explicitaria a insolúvel contradição entre a lei da educação racial e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que repousa sobre a afirmação da realidade de "uma identidade humana universal".
O contrato constitucional das democracias está amparado no princípio da pluralidade. O princípio significa que não se reconhece doutrina ou ideologia oficialmente verdadeira, à qual a nação deveria fidelidade ou obediência. Dele se extrai um corolário: o sistema de ensino não pode promover catequese ideológica. Escolas, livros didáticos e exames vestibulares não têm o direito de doutrinar - isto é, de atribuir estatuto de verdade científica ao que não passa de um ponto de vista político. Haddad evidencia no Enem a sua visceral aversão ao princípio da pluralidade. Ele é ministro num Estado democrático, mas sonha ser comissário de um Estado totalitário.
A questão escandalosa não é um raio no céu claro. Nos últimos anos, enquanto se metamorfoseava em vestibular nacional, o Enem converteu-se num pátio de folguedos da pedagogia da doutrinação. O desfile de catecismos ideológicos abrange, ao lado de versões cômicas de um marxismo primitivo, constrangedores panfletos do ambientalismo apocalíptico e manifestos rudimentares do multiculturalismo pós-moderno. Os exames, especialmente suas seções de ciências humanas, parecem emanar de um acordo de partilha territorial firmado entre os arautos acadêmicos do cortejo de ONGs e "movimentos populares" associados ao governo. Contudo, mesmo sobre esse deplorável pano de fundo, exigir que milhões de jovens estudantes repitam como autômatos as sílabas, palavras e frases escritas pelo Palácio do Planalto equivale a ultrapassar a fronteira da obscenidade.
Meu avô materno, um antifascista perseguido pelo regime de Mussolini, deixou a Itália com a esposa e dois filhos pequenos na hora da eclosão da guerra mundial. No Brasil, beneficiando-se de uma bolsa de estudos baseada no mérito, minha mãe pôde ser matriculada no prestigioso Dante Alighieri, que era um colégio da comunidade italiana de São Paulo. Por uma dessas amargas ironias, durante dois anos, até a declaração brasileira de guerra ao Eixo, ela tinha a obrigação, compartilhada com todos os colegas, de fazer a saudação ao Duce à entrada da escola. A exposição a desenhos animados violentos não transforma crianças em adultos assassinos. A rotina da saudação diária a Mussolini em nada reduziu o desprezo devotado por minha mãe ao fascismo. Os estudantes não aderirão ao credo identitário do racialismo por serem compelidos a pagar pedágio à verdade ideológica oficial no Enem. Mas a democracia brasileira fica um pouco menor quando o ministro da Educação veste a fantasia do Duce.
Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br - O Estado de S.Paulo
Assinar:
Postagens (Atom)
