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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

É Proibido Proibir



Por Mario Vargas Llosa





Já faz alguns anos vi em Paris, na televisão francesa, um documentário que ficou gravado em minha memória; de vez em quando os acontecimentos cotidianos atualizam suas imagens e lhes conferem estrondosa vigência, sobretudo quando se fala do problema cultural maior de nossos dias: a educação. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

As Gêmeas




Estava tomando café em pé quando viu passando, na calçada, a pequena que começara a namorar na véspera. Largou a xícara, largou tudo e atirou-se no seu encalço, quase como um maluco. Tropeça num cavalheiro, esbarra numa senhora, e vai alcançar a menina pouco adiante. Caminha lado a lado e faz a alegre pergunta:

- Como vai essa figurinha?

A garota, que era realmente linda, estaca por um segundo. Olha-o, de alto a baixo, com surpresa e susto. Em seguida, vira o rosto e continua andando. Osmar, desconcertado, apressa o passo e a interroga "Mas que é isso? Não me reconheces mais?". Nenhuma resposta. E ele; num espanto misturado de irritação: "Que máscara é essa?". Silêncio, ainda Nessa altura dos acontecimentos, a menina só falta correr.

Então, Osmar perde a paciência; segura o braço da fulana: "Olha aqui, Marilena " Ao ouvir o nome, ela pára: vira-se para ele, mais cordial, quase alegre; encara-o confiante:

- Já vi tudo!
- Tudo como?

Ela parece aliviada.

- Eu não sou Marilena, Marilena é minha irmã.

Pasmo, exclama: "Meu Deus do céu! Que coisa!" A garota sorri divertida com a confusão:

- Eu sou Iara.

Osmar faz a pergunta desnecessária:

- E são gêmeas?

Na véspera, conhecera Marilena. Fora um desses flertes deliciosíssimos de ônibus. Viajaram em pé, lado a lado, cada qual pendurado na sua argola. Quando saltaram, no mesmo poste, era evidente que a simpatia era recíproca e irresistível. Marilena deu-lhe telefone, endereço, tudo. Só não lhe dissera por falta de oportunidade que tinha uma irmã gêmea, Iara. Quando se encontraram mais tarde, Osmar contou o episódio e dramatizou:

- Sabe que eu estou com a minha cara no chão? Besta! Semelhança espantosa! Assim nunca vi, puxa! Como é que pode hein?

Sentaram-se num banco de jardim. E, então, Marilena contou que o equivoco de Osmar não seria o primeiro, nem o último. Mesmo amigos e até parentes incidiam por vezes na mesma confusão. A única coisa que diferia entre as duas era um bracelete que Iara usava e a outra não. Ainda na sua impressão profunda, ele observa:

- Irmãs assim, gêmeas, são muito amigas, não são?

Marilena parece vacilar:

- Depende.

Ele insiste: "E vocês?". Marilena resiste:

- Você está querendo saber muito. Vamos mudar de assunto que é melhor. 

O DRAMA

Desde o primeiro momento, Osmar julgou descobrir em Marilena a índole, a vocação, o destino da esposa. Uma semana depois, avisava em casa e no emprego, em toda parte: "Vou ficar noivo! Vou me casar!". No fim de quinze dias começa a freqüentar a casa de Marilena. Mais tarde, ou seja, dois meses, e fica noivo. Os amigos batiam-lhe nas costas:

- Que rapidez, que pressa! Bateste todos os recordes mundiais de velocidade!

Pilheriava:

- O negócio, aqui, é a jato!

Passava todos os seus momentos de folga na casa da noiva. E, apesar de ver as duas irmãs diariamente, continuava fazendo o mesmo espanto: "Como é possível, meu Deus, duas criaturas tão parecidas!". E quando saia com Marilena e Iara, fazia de próprio o comentário jocoso: "Eu me sinto uma espécie de noivo de duas!". 

Um dia, porém, Marilena pôs-lhe a mão no braço:

- vou te pedir um favor Não brinca mais assim. É um favor. Não brinca mais assim. É um favor que te peço.

- Por quê?

E ela:

- Se tu soubesses como me irrita essa semelhança' Estou cansada, farta, de ser tão parecida com Iara! - Pausa e acrescenta, com surdo sofrimento: - Eu não queria me parecer com ninguém! Com mulher nenhuma!


NOVO PEDIDO

Dai a dias, Marilena faz novo pedido: "Não quero que você tenha muita intimidade com Iara, sim?". Osmar, que achava abominável qualquer briga entre parentes, sobretudo entre irmãos, tomou um choque. Pigarreia e indaga: "Mas vocês não são tão amigas?". Marilena crispa-se diante dele: "Amigas, nós? Nunca!". Pela primeira vez, admite:

- Nunca brigamos, nunca discutimos e ela me trata até muito bem. Mas me odeia, ouviu? Eu sei que ela me odeia!

Agarrada ao noivo, Marilena fala do sentimento turvo e constante que não se traduz em atos, em palavras. Explica: "Iara nunca me disse nada, nada, mas...". Osmar pigarreia, assombrado: "Acho que você está exagerando!". Fosse como fosse, ele procurou, com o máximo de tato, discrição, afastar-se da cunhada. Mas não conseguia acreditar que Iara, tão cordial com todos e amorosíssima com Marilena, pudesse odiar alguém e muito menos a irmã. Por essa época, Iara apanhou uma gripe muito forte, quase uma pneumonia, venceu a crise, é certo; mas sua convalescença constituiu um novo problema. Depauperada, numa tristeza continua que a calava, só falava em morrer. O médico da família coça a cabeça: "Esgotamento. O golpe é ir para fora". O casamento de Marilena estava marcado para próximo. A mãe pergunta: "Não assiste ao casamento?". Iara responde:

- Não se incomode, mamãe, que eu não vou fazer falta. E se eu ficar aqui não sei, não; acho que vou acabar fazendo uma bobagem!
A família não teve outro remédio senão mandá-la pata a fazenda de um tio em Mato Grosso. Muito enfraquecida, Iara suspirou:

- Ótimo que seja em Mato Grosso. Quanto mais longe melhor.

BODAS

Quando o avião que a levava partiu, Marilena vira-se para o noivo: "Graças, meu Deus, graças!". Essa alegria pareceu a Osmar cruel, quase cínica. Era, porém, evidente que a ausência da outra a fazia felicíssima: "Agora, sim", dizia, "agora eu sei que não me acontecerá nada!". E, de fato, um mês depois casavam-se no civil e no religioso. Como presente de casamento, haviam ganho uma pequena casa, lírica e nupcial, em Lins de Vasconcelos. Ás dez horas da noite, deixam a casa dos pais da noiva e vão para a nova residência. Estão solitários como Adão e Eva. Ela, transfigurada, avisa: "Depois te chamo!". Entra no quarto e, ainda de noiva, fecha a porta atrás de si. Do lado de fora, ele espera, fumando, impaciente. Quinze minutos depois, bate. De dentro, vem a resposta: "Já vai". Mais quinze minutos e Marilena entreabre: "Pode vir, meu bem". Horas depois, quando já amanhecia, ele, no seu deslumbramento, passa a mão no braço da pequena. Súbito, senta-se na cama. Balbucia, apavorado: "O bracelete!". Ela responde, muito doce:

- Eu não sou Marilena, eu sou Iara.

Fora de si, ele se levanta, procura debaixo da cama, dos móveis; derruba uma cadeira; e, no meio do quarto, olha em torno, sem compreender. Então, Iara aponta: "Ali!". Como um louco, ele corre ao guarda-vestidos; num uivo abre as duas portas. Mas recua, numa histeria pavorosa. Lá de dentro, vem sobre ele o cadáver de Marilena, vestido de noiva. Na cama, Iara está acendendo um cigarro americano.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A lição de uma Santa



Por Otto Maria Carpeaux 


HÁ ALGUNS anos um dos meus amigos entrou numa livraria católica e pediu um livro sobre Santa Teresa. A jovem que o atendeu trouxe um monte de livros sobre Santa Teresinha do Menino Jesus. "Mas não, eu queria alguma coisa sobre a grande Santa Teresa de Ávila!" A jovem levantou os ombros e respondeu: "Sinto muito, mas a grande Santa Teresa já não é moderna."

Sem dúvida, a "grande" Santa Teresa teria rido desta anedota; a visionária tinha, como verdadeira castelhana, o humor superior da sua raça e a inteligência prática. A invasão do "moderno" nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade. São os santos que transformam o mundo.

Nada mais interessante que observar as coisas que são tomadas a sério pelos nossos contemporâneos, se eles são ainda capazes de levar alguma coisa verdadeiramente a sério. Achar-se-á que os idealistas e os espiritualistas mais sublimes se apavoram em face das crises econômicas, das revoluções sociais e das batalhas militares, como se isso tivesse alguma importância. Ah! como o materialismo venceu até os seus inimigos mais rebeldes! Quanto a mim, estou convencido que os santos são o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que a distribuição das forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar. Todos esses que hoje se agitam tumultuosamente estarão mortos em breve, e nós juntamente com eles. É a morte que dá a esses episódios a sua verdadeira medida. A morte carnal, a decomposição, à qual - maravilhosas lendas da Antiguidade cristã! - a carne dos santos resiste. Somente, é preciso saber o que é um santo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Passo Em Falso (ou A Cara No Chão)



“Acho que sei, afinal, a que vim.
E já me vou. Uma pena.
Não há mais tempo pra mim”

Darcy Ribeiro

Por Badou Sarcass

Amanhece: chuvosa alvorada. À beira da estrada, um homem parado, caído, bêbado. Com a cara mergulhada em poças d’água, lutando para não se afogar. Sentindo os sussurros do dia anterior dizendo tudo o que ele nunca quis ouvir. “Enlouqueci?”, pensou. A realidade inteira, travestida em gotas de chuva, dizia que não e fazia com que doesse fundo cada palavra lembrada, como se fosse uma certeza ouvida.

Escuta passos. Passos pesados, que mergulham no abismo, chafurdando na água que cobre toda a estrada. Aproximam-se sapatos escuros na direção de seus olhos. “Doutor Camilo?”, uma voz grave, “Doutor Camilo?”. Erguendo a face e fazendo um grande esforço para não engolir água, consegue finalmente balbuciar: “Sim, sou eu”. “Procurava-o faz tempo, doutor, poderia vir comigo?”. “Mas quem é o senhor?”, retrucou o bêbado com a voz um pouco mais firme. “O que deseja? Não vê que preciso ficar sozinho?”. “É absolutamente necessário que me siga, doutor. Uma questão de vida ou morte”, disse o homem numa espécie de súplica. “Ajude-me a levantar, não me sinto bem, como pode perceber”, observou Camilo, enquanto se esforçava por movimentar-se. Enfim se pôs de pé.

Começava então a se lembrar da noite anterior, da noite que o trouxe até ali. Era seu aniversário, uma festa: todos os familiares e amigos celebrando o prolongamento gorduroso e estéril da vida, comemorando o futuro. Desde a manhã ele sabia que a doença estava ali. Havia entrado em seu corpo, silenciosamente, e devorava pouco a pouco seus pulmões. Fumou como nunca naquele dia, antes de anoitecer terminou o terceiro maço de cigarros. “Sou um médico”, pensou, “a morte é inexorável e eu bem devia saber disso”. Por volta das nove horas, chegou, enfim, em casa. Levava na boca o sabor agridoce da palavra “fim”. Agora, lembrava-se de ter começado a beber algo forte, um uísque talvez. E via os rostos, felizes e solícitos, implorando por um aceno com a cabeça ou um aperto de mão. Pensava em Tchekhov, pensava em Freud: “como morreram?”, perguntava-se. Em apenas alguns minutos toda a sua agonia exibiu-se como um filme em sua cabeça. Sentiu nojo. Resmungou para algum amigo umas palavras amargas e saiu da casa, do universo. Pensava, àquela altura, em como era terrível envelhecer, em quantas escolhas havia feito, em quantas mulheres poderia ter tido. “Que vida!”, pensava. “E agora? Tenho cinquenta anos e uma imensa pressa de viver e já não posso mais me dar ao luxo de ser familiar, de ser trivial como todos os outros.”

A cada copo o mundo passava; era amado em cada trago. Chegava ao fim a idade da razão. Absolutamente não podia dizer de si mesmo que foi homem. Não foi. Foi mísero e mesquinho e gostaria de gritar isso aos quatro ventos. Gostaria de impor sua vontade a Deus e dizer a Ele que fosse embora e deixasse que a vida corresse solta, sem saber da morte.  Bebeu e bebeu. E agora aquele homem o recolhia na sarjeta e precisava dele, de sua ciência. “É tudo vaidade!”, Lembrava-se da exclamação de Fausto. Também ele era Fausto, mas sem um Mefisto que o fizesse sonhar. Já não desejava viver, não com o fim a assombrar-lhe diariamente os sonhos, não "com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens"*. Continuou, com muito esforço, a caminhada, como se carregasse a finitude do universo nos ombros. “Todos falharam”, pensou consigo mesmo, ao contemplar aquele amanhecer chuvoso. Quando era jovem seu Deus morreu. Adulto e médico, a ciência só ofereceu-lhe abismos. Há pouco tempo tinha se refugiado na arte, a derradeira metafísica para as almas inquietas. Mas foi tudo desespero.  O sabor do nada começa a insinuar-se na boca dos homens ao mesmo tempo em que as rugas iniciam sua existência no rosto. O conhecimento vai se provando cada vez mais humano e, como humano, mais inútil. Ele já não tinha convicções e aquele homem cheio de vida e fé o arrastava cada vez mais rápido. “Um caso de vida ou morte”, pensou. “Todos tem um caso de vida ou morte, por que ficam tão chocados? Só querem saber de seus casos, como se valessem algo. São seres cheios de uma urgência estúpida e não percebem o quão ridículos parecem”. Preferia estar entre as coisas naquele momento, estar longe de tudo o que é vivo, longe da sujeira da vida.

“A eternidade ou o nada!”, gritou enquanto escapava dos braços daquele sujeito, que era limpo demais, e se atirou no meio da estrada, com a cara no chão, desejando ardentemente um desaparecer do tempo. Mas nenhum carro passou.

*Fernando Pessoa – “Tabacaria”

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Feliz Ano-Novo, Kafka



Um artigo de Luiz Felipe Pondé

Para baixar o conto de Franz Kafka "A Construção" clique aqui


Acho o Réveillon uma festa chatíssima. Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Tel Aviv, e ainda bem que aqui não tem Réveillon.

A cidade é patrimônio cultural universal porque tem o maior conjunto arquitetônico Bauhaus do mundo, o que dá a ela um tom entre o blasé (isto é, a soma do cinza e branco típico dos prédios Bauhaus de poucos andares com o desleixo chique característico da população local mediterrânea) e o moderno da primeira modernização, antes de a modernidade virar essa coisa brega de massa.

Tel Aviv é descrita pelos israelenses como sendo "outro mundo", diferente do resto do país, justamente por seu caráter secular, arredio ao fanatismo religioso que cresce por aqui e aberto à convivência mundana.

Diante desse cenário, sempre que estou nesta cidade, meu pessimismo (que tem sua origem provavelmente em alguma forma de disfunção fisiológica) cede. O desleixo e o ar mediterrâneo, associados ao desespero mudo, embutido no cotidiano de quem se sabe uma espécie caçada, me acalmam. Estranho? Sou estranho mesmo.

Segundo reza uma das lendas sobre Franz Kafka, quando perguntaram a ele se não havia esperanças para o mundo, ele teria respondido: "Esperanças há muitas, mas não para nós".

De todas as formas de pessimismo, a de Kafka é a única que me assusta. Não temo pessimismos cosmológicos. Não espero nada da vida na forma de recompensa moral (aquilo que a teologia cristã chama "retribuição pelos méritos").

Antes de tudo porque não sou uma pessoa boa. Raramente me preocupo com os outros, e a África pouco me importa. Nem a fome. Nem as baleias. Nem você.

Não conto com a misericórdia de Deus porque não a mereço. Guerras sempre existirão, e a humanidade faz o que pode para sobreviver ao mundo e a si mesma.

A possível falta de sentido da vida não me interessa. Durmo bem com ela. Sou daqueles que pensam que a metafísica é fruto de indisposição e mau humor. Mas temo o pessimismo kafkiano como nada mais no mundo. Temo a burocracia. Todo amante da burocracia tem cara de rato. Kafka tinha razão.

O pior mundo de Kafka não é sua barata, mas aquele do seu conto "A Construção". O roedor que faz a "construção" em sua casa é a melhor descrição do inferno burocrático em que o mundo se transformou.

Kafka, à diferença da maioria de nossos especialistas em ciências humanas, sabe que construímos a burocracia para nos sentir seguros, e não porque nos obrigam a isso. E o pior é que existem muitas razões para nos sentirmos inseguros, por isso não há saída para o inferno que é a burocracia.

Algumas almas menos brilhantes assumem que um mundo "paperless" (nada mais ridículo do que usar expressões em inglês para se sentir mais científico), ou seja, sem papel, seria menos burocrático. Risadas... Nada mais horroroso do que alguns restaurantes que começam a trocar seus menus "físicos" por iPads. Logo nos farão escolher nossos pratos via rede, e eles acharão isso o máximo.

Um mundo "paperless" afogar-se-á em senhas. Você precisará de uma senha especial para usar sua senha menos especial e assim sucessivamente, ao infinito. Depois, precisará de um programa superavançado para ter acesso a todas as suas senhas e combiná-las de modo secreto (em si, uma outra senha).

Quando você tiver uma crise diante de tudo isso, algum burocrata dirá para você que isso tudo é para sua segurança. E você será obrigado a concordar, assumindo também uma cara de rato.

Mas, dirão as almas menos brilhantes, graças a Deus estamos cortando menos árvores e não estamos gerando papel.
No conto de Kafka "A Construção", nosso roedor atarefado teme um ruído horroroso que vem não sabe de onde e por isso começa a construir "rotas de fuga" em sua moradia subterrânea.

Logo, a rede de "rotas de fuga" é tão grande que ele se esquece onde começou e descobre que, apesar de o ruído aumentar cada vez mais e sua sensação de perigo aumentar junto com o ruído, ele já não sabe como fugir, porque suas rotas de fuga viraram um labirinto infernal.
O mundo de Kafka é uma prisão a céu aberto, e os ratos venceram. Feliz Ano-Novo.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As Nuanças de Jens Peter Jacobsen









POR OTTO MARIA CARPEAUX

Contribuindo à definição da nossa época, poder-se-ia dizer: é uma época sem nuanças. O espírito dominante, coletivista, não as suporta e não as tolera. Desafiando a frase brilhante e venenosa de Renan — "la vérité est une nuance entre mille erreurs"1 — a nossa época prefere as verdades simplificadas, "verdades em bloco", dogmáticas, das quais a nuança seria uma heresia. Faltam as nuanças entre as cores locais, duramente justapostas, dos pintores; faltam as nuanças na língua homofônica dos músicos. E quem procuraria nuanças no pão quotidiano dos intelectuais e dos pobres, no cinema? Estamos coletivamente felizes, isto é, profundamente infelizes, mas também sem nuanças. Morremos mesmo, todos, sem nuanças, a mesma morte.
           
Neste mundo, duma só cor e ruidosamente unânime, ressoa, em voz muito baixa, a reza do poeta, a reza de Rilke:
            
"Dá, ó Senhor, a cada um a sua própria morte."

Sei em que Rilke pensou escrevendo este verso. Foi o mesmo em que pensou ao escrever, no romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, as frases inesquecíveis: "Para fazer um verso, precisa-se ter visto muitas cidades, homens e coisas. Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos, despedidas longamente pressentidas, mistérios da infância não esclarecidos, mares e noites de viagens. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las, precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. Pois as próprias recordações não o são ainda. Antes, as recordações devem entrar em nosso sangue, nosso olhar, nosso gesto; quando, então, as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser, então pode acontecer que, numa hora rara, nasça a primeira palavra dum verso." Pensou Rilke na mesma pessoa, quando fez do herói do seu romance um dinamarquês. Pensou no poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen.

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