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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O Inferno Lírico de Badou Sarcass XI






Não me cobrem versos cálidos ou
Palavras suaves sobre uma vida feliz.
Eu não posso! Eu chafurdo na lama,
Na poeira que me faz humano, no sopro
Do nada que constrói meu ser.
Há muitos que cantam o pôr-do-sol,
É preciso que alguém cante o chão.
Não quero colecionar sorrisos imbecis
Para mostrar o quanto valho.
Não esperem um hálito fresco
Desta boca que cheira a merda.

sábado, 27 de setembro de 2014

Eu cantarei






Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


I


Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Salto No Escuro



Um belo poema de Ângelo Monteiro



Para o salto que anelo a vida é tanta
Que não conto no tempo o seu pulsar:
Pois o vento proclama o jogo errante
Com as flores e as nuvens ao passar.
 

No arremesso da corda para o salto
Pouco interessa aonde vá cair:
Se no mar ou no escuro firmamento
As estrelas e as ondas são porvir.
 

Digam o que disserem, a beleza
É inteligente e por isso não cansa:
E no jogo com ela só quem perde
É quem por medo foge e não avança.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Boas Bestas







Quero te assustar: dar a cara ao teu soco,
beijar teu rosto, beber teu suor,
amar teu ódio.
E, se um dia o tempo pesar,
estaremos juntos,
embrigados de um apetite
voraz, só então
Faremos a revolução.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

NUMA ESPERANÇA QUE RESULTOU VÃ



Um maravilhoso poema do Frei Luis de León



Foge, felicidade, de meu peito;

que engano te remete novamente
à fúria de um passado sem proveito?



Guarda memória do tempo inclemente, 
quando aos olhos do povo, desterrada, 
foste acusada repentinamente.


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