Ótima palestra do Reinaldo Azevedo na CPFL Cultura
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
PEC de cu é rola
Uma visão muito bem humorada das "jornadas de junho", por Paulo Bono do blog Espalitando Dente
Foi tudo
muito rápido. Eu estava em casa com o peito cheio de dor e gases. Estrangulava
a tarde com bobagens na internet enquanto aguardava por um maldito arroto. Foi
quando vi esse vídeo do Pelé dizendo para esquecermos as manifestações e
apoiarmos o time do Felipão. Só mesmo a Xuxa para dar a buceta a um cara
desses. De alguma forma, aquele vídeo me fez mal. Então peguei o telefone,
liguei pro Guismo e disse – “Tô dentro”. Bati a porta e desci a rua. Passei num
desses armarinhos coloridos e pedi uma cartolina e uma caneta Piloto. Escrevi a
frase enquanto a putinha do balcão observava suas unhas. “Só se fala nesse
protesto” – ela disse – “mas é contra o quê mesmo?”. Eu disse – “Vamos fuder a
bastilha, baby!”. Depois peguei um ônibus e logo estava no Campo Grande já
arrependido de ter deixado meu sofá para trás.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Salto No Escuro
Um belo poema de Ângelo Monteiro
Para o salto que anelo a vida é tanta
Que não conto no tempo o seu pulsar:
Pois o vento proclama o jogo errante
Com as flores e as nuvens ao passar.
No arremesso da corda para o salto
Pouco interessa aonde vá cair:
Se no mar ou no escuro firmamento
As estrelas e as ondas são porvir.
Digam o que disserem, a beleza
É inteligente e por isso não cansa:
E no jogo com ela só quem perde
É quem por medo foge e não avança.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Boas Bestas
Quero te assustar: dar a cara ao teu soco,
beijar teu rosto, beber teu suor,
amar teu ódio.
E, se um dia o tempo pesar,
estaremos juntos,
embrigados de um apetite
voraz, só então
Faremos a revolução.
The Dying Heart
“Time drops in decay,
Like a candle burnt out”
(Willian Butler Yeats)
Este coração que sangra agora,
Já não sangra por amor ou glória,
É o sangrar da enfermidade:
A Agonia da liberdade
No peito de quem chora.
sábado, 10 de agosto de 2013
O Ópio dos Intelectuais
"Em rigor, o ateísmo acredita que sabe, mas não sabe que acredita"
Por João Carlos Espada
Uma ‘nova’ moda percorre a Europa: a moda do ateísmo militante. Na inevitável França, multidões assistem às palestras do novo «philosophe» de serviço: Michel Onfray, autor de ‘Traité d’athéologie’, um «best-seller» entre os nativos, bem como em Espanha e Itália. A sua ‘Universidade Popular de Caen’, onde não há exames nem diplomas(sic), mas existe o inevitável subsídio do governo local, fiéis atentos disputam lugares nos auditórios. A doutrina oficial chama-se aí ‘hedonismo ético’.
Uma ‘nova’ moda percorre a Europa: a moda do ateísmo militante. Na inevitável França, multidões assistem às palestras do novo «philosophe» de serviço: Michel Onfray, autor de ‘Traité d’athéologie’, um «best-seller» entre os nativos, bem como em Espanha e Itália. A sua ‘Universidade Popular de Caen’, onde não há exames nem diplomas(sic), mas existe o inevitável subsídio do governo local, fiéis atentos disputam lugares nos auditórios. A doutrina oficial chama-se aí ‘hedonismo ético’.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
NUMA ESPERANÇA QUE RESULTOU VÃ
Um maravilhoso poema do Frei Luis de León
Foge, felicidade, de meu peito;
que engano te remete novamente
à fúria de um
passado sem proveito?
Guarda memória do tempo inclemente,
quando aos
olhos do povo, desterrada,
foste acusada repentinamente.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
A esquerda e os mitos difamatórios
Por Olavo de Carvalho
No show de ignorância dado à Folha de S. Paulo, em
entrevista, pelos líderes da FLIP (Festa Literária Internacional de
Paraty), recém encerrada, a estrela maior foi sem dúvida o sr. Milton
Hatoum, que, incapaz de lembrar o nome de um só escritor brasileiro
importante, que fosse de direita, ainda completou a performance com esta
maravilha: "Diziam que Nelson Rodrigues era, mas discordo. Era
provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos."
terça-feira, 25 de junho de 2013
VICO VIVO
A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale, o parque municipal de Nápoles. Perto do mar, a figura de pedra, corroída pelo tempo, olha o panorama do Posilippo, da ilha de Capri, do Vesúvio, ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica, onde os gregos, os romanos, os longobardos, os árabes, os alemães, os franceses, os espanhóis deixaram os seus traços; paisagem que sonha com o passado, e com um futuro incerto. Como a história, também aquela estátua, na penumbra das árvores velhíssimas, parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos; contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento, que não sabem quem foi aquele que lhes traçou, a elas também, os implacáveis destinos futuros.
Como sabem morrer as mulheres na ópera!
Morte de Electra na ópera "Idomeneo", de Mozart:
Morte de Abigaile na ópera "Nabucco", de Verdi:
Morte de Abigaile na ópera "Nabucco", de Verdi:
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Badou às Portas Do Inferno
(ou Epitáfio Para A Esperança)
Cá está Badou, com o vento a soprar-lhe os cabelos.
Um homem cuja solidão violou o sacro tempo,
A quem a loucura tornou um deus de areia.
Sobrevivo ainda, é verdade: até quando?
Reconheço as desventuras, a vontade deles.
Sou Ulysses contra a fúria de um mar cor de vinho.
Minha odisseia urbana, meu tempo perdido:
Ando como um escravo que canta ao pensamento
O coro dos vencidos, suspiros pela pátria usurpada.
Poderá alguém dizer: “acaso deliras?”
Mas, no subsolo, Badou constrói sua torre de marfim,
Brada aos quatro ventos a mediocridade da raça.
O “território livre” se encontra com o Construtivismo na Terra do Nunca
Desde que
ingressei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1992,
intriga-me ouvir que a USP e, por conseguinte, o Largo, constitui
território livre. Sempre tentei compreender o que essa liberdade
significaria.
A MULTIDÃO AFRODISÍACA
Por Nelson Rodrigues
Nunca me esqueço de uma conversa que tive, há tempos, com o Plínio
Marcos, o autor mais representado do Brasil. Hoje, é difícil, senão impossível,
descobrir um teatro que não tenha o seu nome, na frente, como uma manchete. Mas
eis o que me disse o Plínio Marcos: — “Eu queria representar no Maracanã, para
200 mil pessoas!”.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Badou às portas do paraíso
"As palavras do poeta volteiam incessantemente em redor das portas do paraíso e batem implorando a imortalidade."
Goethe
No caos em que choro
Meus deuses de outrora.
Ao distante céu imploro,
Rogo àquela musa ignara
Que pelos ares abandone
Um ou outro verso infame
Que faça, em Badou, o milagre
De enterrar a poesia certa,
Ainda que ele nunca espere
A porta do paraíso aberta.
Goethe
No caos em que choro
Meus deuses de outrora.
Ao distante céu imploro,
Rogo àquela musa ignara
Que pelos ares abandone
Um ou outro verso infame
Que faça, em Badou, o milagre
De enterrar a poesia certa,
Ainda que ele nunca espere
A porta do paraíso aberta.
Tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre
Por Thiago Moraes
Um
dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso
país é a falta de compromisso dos políticos com as idéias que dizem
defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal
apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para
quem é católico isso até acarreta uma complicação extra, pois para
seguir os ensinamentos da Igreja em matéria política se fica dependendo
de uma reflexão sobre o que as coisas são na realidade, já que não é
prudente fazer uma aplicação direta baseada em rótulos.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Eles, os medíocres
Quem, calado, abomina
Os fazeres do homem
Medíocre que parte para
A luta e leva no rosto
A poeira do chão,
Sabe o que é
Ser maior de espírito
Contra míseros corvos
Que usurpam eternidade.
Badou percorreu casas,
Adentrou mulheres,
Violou virgens pelos quatro
Cantos da vida eterna:
Amém!
Os fazeres do homem
Medíocre que parte para
A luta e leva no rosto
A poeira do chão,
Sabe o que é
Ser maior de espírito
Contra míseros corvos
Que usurpam eternidade.
Badou percorreu casas,
Adentrou mulheres,
Violou virgens pelos quatro
Cantos da vida eterna:
Amém!
domingo, 9 de junho de 2013
O Inferno Lírico de Badou Sarcass X
Eu, Badou Sarcass, anarquicamente único,
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Oscar, o stalinista
Certa vez, numa entrevista concedida à revista “Playboy”, Gilberto Freyre - autor de “Casa Grande & Senzala”,
o livro clássico que revelou a importância do negro na formação
histórica da sociedade brasileira - incluiu o arquiteto Oscar Niemeyer
na sua lista de sujeitos proeminentes que considerava burro. Aliás, mais
do que burro, o mestre de Apipucos o tinha na conta de sujeito chato e
muito ignorante, um tipo de pessoa com a qual seria sempre difícil
manter-se uma conversa interessante. (Ah, agora me lembro: a entrevista
foi concedida ao jornalista Ricardo Noblat, então repórter da Veja, ou coisa assim, no início dos anos 80).
quinta-feira, 21 de março de 2013
Momento
Um poema de Hélio Pellegrino
Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silêncio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!
A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das árvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!
Todas as coisas - em clausura - cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.
segunda-feira, 18 de março de 2013
O mal na obra de Lars von Trier
Quem quiser se divertir no cinema não vá ver os filmes de Lars von
Trier. Mas quem quiser discutir antropologia filosófica e a questão do
mal no mundo é lá que deve ir. A coragem artística do diretor norueguês
não tem limite. Sua habilidade com a câmara é digna de um Kubrick. Penso
que ele fez (faz) a mais correta e completa crônica de nossos tempos, a
fisiologia da alma nesse maldito século XXI. Não por acaso nos filmes a
questão psicológica (e psiquiátrica) tem relevo. Psiquiatria: ciência
da alma.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Uma Banana Como Merenda
Por Nelson Rodrigues
Eu e o Hélio Pellegrino temos um amigo que é o que se chama um erudito. E o pior é que se trata de um caso recente e diria mesmo de fulminante erudição. A princípio suspeitei de uma deslavada escroqueria intelectual. E aqui começa o mistério que desafia todo o meu raciocínio e toda a minha intuição. Do dia para a noite o semi-analfabeto aprendeu não sei quantos idiomas.
Já não digo francês, que todos falam, menos eu. Não. O rapaz declamava Goethe em puríssimo alemão. E, certa noite, passei pelo seu quarto, na praça Onze (ele mora no alto, junto à clarabóia, como no tempo de Paulo de Koch). Entro e o surpreendo, no meio de três ou quatro, em pé, recitando o padre-nosso em grego. Saí dali e fui ligar para o Hélio Pellegrino. Disse-lhe, sinceramente esmagado: — “Hélio, nós somos dois analfabetos!”.
Eu e o Hélio, cada vez mais inferiorizados, temos seguido pelos jornais a carreira de tão vasta e súbita erudição. E eu fico a resmungar, na irritação da minha impotência: “Como sabe! Como lê! Como cita!”. Até que, de repente, baixou-me uma luz e descobri toda a fragilidade daquela monstruosa estrutura. Aquilo era uma catedral de pauzinhos de fósforos, sim, um gótico de palitos.
Certa manhã, fui para a máquina e bati minha primeira carta anônima. Se bem me lembro, dizia mais ou menos o seguinte: — “Leia pouco, pelo amor de Deus, leia pouco!”. E assim, nesse tom de salubérrimo descaro, fui dizendo tudo. Aconselhei-o a voltar ao Dumas pai, a Ponson Du Terrail, a Michel Zevaco, Eugène Sue e outros folhetinistas de boa cepa. Acabei a carta, enfiei-a no envelope e tive a desfaçatez de mandá-la registrada.
Agora, a revelação: — em que pese o evidente traço caricatural, não estou longe de pensar assim. Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.
Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.
(Divaguei demais e desculpem.) De Dostoievski passo à minha infância. Há bastante de Dostoievski, bastante de Dickens, na rua Alegre, em Aldeia Campista. Não será a pura semelhança episódica, Não. É uma semelhança, digamos assim, de atmosfera. Sinto que parte de minha infância está inserida, difusa, volatilizada em certas páginas de Dickens ou Dostoievski. Por exemplo: — eu poderia fazer, com minha passagem pela escola pública, uma antologia de humilhações. (Está comigo, enterrado em
mim, um perene menino humilhado.)
mim, um perene menino humilhado.)
A escola era bem na esquina da rua Alegre com Maxwell. (Quando Lili morreu, eu achava absurda a vida sem Lili. Lembro-me de que, depois do enterro, eu mudava de calçada para não passar pela sua porta.) Comecei a sofrer no recreio. Já disse que levava para a escola, como merenda, uma imutável banana. No primeiro dia, bateu a sineta do recreio e lá fui eu. O pátio se inundou de meninos e meninas. Apanhei a banana e, sem pressa, comecei a descascá-la. Fazia isso meio solene, como se descascar banana exigisse uma técnica, uma arte, não sei que virtuosismo.
Descascada a banana, eu não a mastigava imediatamente. Não. Com delicada paciência, punha-me a chupá-la, como hoje se faz com o Chicabon. E, ao mesmo tempo, olhava para os outros meninos. Não sei por que, o fato é que, no primeiro e segundo dias de escola, tive orgulho, vaidade da banana. Olhava para os garotos, como se dissesse: “Eu tenho uma banana. Estou comendo uma banana”. Mas já o primeiro dia deu-me para perceber que havia toda uma fauna de merendas prodigiosas.
Lembro-me de que uma das minhas invejas mortais foi um garoto, já taludo. (Eu era miúdo e tinha vergonha da minha cabeça grande.) Trouxe a merenda embrulhada em papel de pão e amarrada com barbante. Desfez o nó do barbante e abriu o papel: — então, eu a vi. Era um sanduíche de pão com ovo. Pão com ovo. O menino pôs-se a comer. A gema escorria-lhe da boca como uma baba amarela. E outros garotos e garotas levavam sanduíches de goiabada, de queijo, de bife; havia uma menina que levava biscoitos numa latinha.
No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo. Se eu levasse um, havia de comê-lo no meio do recreio, com todos olhando; e deixaria a gema escorrer pelo queixo. Ao mesmo tempo que me envergonhava da banana, tinha-lhe pena. Pena da banana. De vez em quando, faltava dinheiro em casa. Banana custava um vintém. E eu ia para a escola sem merenda. Na hora do recreio, rodava pelo pátio, errante e perdido de fome.
Já contei o episódio das orelhas sujas. Mas não foi só. De vez em quando a professora me apontava como um exemplo: — “Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nelson”. As meninas me olhavam e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública. Até que, um dia, estava eu no meu banco, que era o último (eu me sentava embaixo de uma janela). E, de repente, ouço a voz da professora: — “Menino, não coça a cabeça!”. Eu devia estar entretido no meu sonho. A professora bate com a régua na mesa: — “Nelson! Não está me ouvindo? Levante-se! De castigo, já! Ali, fica ali! Aí!”.
Saí eu, lá do fundo, assombrado, e vim atravessando toda a classe. Dizia, chorando: — “Eu não ouvi a senhora me chamar!”. E ela: — “Menino insubordinado!”. Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela: — “Vira, vira! Fica de frente!”. Estou cara a cara com os outros. Ela ainda continua: “Parece que tem o bicho carpinteiro, esse menino!”. E, súbito, muda de tom. Pergunta: — “Por que é que você coça tanto a cabeça? Vem cá. Chega aqui. Pode vir”. Eu me chego. Ela está dizendo, quase doce: — “Está com medo? Eu não vou te fazer nada, Nelson. Vem, meu filho!”. E completa, rápida, cortante: — “Quero só examinar tua cabeça”. Paro: — “Não, não!”. Mas ela vem me buscar; sou arrastado: — “Fica quieto, fica quieto!”. Imobiliza a minha cabeça. Sinto seus dedos enfiados nos meus cabelos. E, de repente, o berro: — “Não disse?”. Vira-se para a classe: — “Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!”. Levou-me para a sala da diretora: — “Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!”. A diretora, de óculos e papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili.
(15/12/1967) No livro "O óbvio ululante"
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Lei, seca lei
Por Valter Heller Dani
As leis sempre existiram para frear aqueles indivíduos com a bússola moral defeituosa. Para o cidadão moralmente são, as leis são inúteis, pois ele viveria normalmente sem elas e sem tampouco prejudicar ninguém.
Urge
na atualidade a necessidade de se resolver problemas nevrálgicos com
medidas contundentes de curto prazo, o que, à primeira vista, parece
perfeitamente revestido de lógica. O que passa despercebido, como sempre
nessas tentativas, é que, em alguns casos, essas medidas contundentes
acabam por atingir aqueles que não precisavam ser atingidos e deixam
escapar aqueles que deveriam.
A
quantia enorme de mortes no trânsito a cada ano levou os brasileiros a
aceitar de forma passiva leis abusivas que, à primeira vista, parecem
ter vindo para diminuir o problema em foco, mas na verdade só servem
para diminuir ainda mais as liberdades individuais e pouco, muito pouco
resolvem aquilo que deveriam resolver. O álcool não é, de forma nenhuma,
o maior responsável por esse Vietnã anual das estradas brasileiras. Os
verdadeiros responsáveis são a imprudência, a negligência, e a
imperícia. A combinação destes fatores, sim, é assassina. Mas, quando
num caso de grande repercussão é constatada a presença do fator álcool,
isso rapidamente se aplica a todos os milhares de ocorrências como se
fizesse parte específica de cada uma.
Aparvalhados com esses dados, os
cidadãos passam a achar certo que lhe restrinjam ainda mais nos seus
direitos individuais, dos quais constam dirigir sem ser parado e não ser
obrigado a fazer testes sem ter dado motivo algum.
O aumento das mortes no trânsito nesse feriado de Natal em relação a 2011 foi grande em todo Brasil. Só no Sul 28 mortes (http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,3992216,499,21072,impressa.html)
sendo que não se flagrou um caso sequer de alcoolemia nos motoristas
envolvidos. Ao mesmo tempo, uma verdadeira enxurrada de motoristas que
estavam conduzindo seus veículos de forma segura, são autuados todos os
dias por uma ingerência mínima de álcool.
Acima
do Equador, onde estão as nações que gostamos de denominar como
‘primeiro mundo’, há muito tempo que álcool e direção, combinação que
pode causar danos a terceiros, são combatidos pelos governos sem leis
que proíbem a ingestão de álcool de forma tão radical como a adotada
aqui. Decididamente não há por lá a perseguição de todos os motoristas
de forma geral e sem exceções. Ora, por que um motorista que dirige
dentro das normas atuais regidas pelo Código Nacional de Trânsito, com
seu veículo, bem como sua documentação pessoal, em dia, deve ser
obrigado a fazer o teste de alcoolemia? Existem testes de natureza
extremamente simples que podem constatar se o motorista tem as condições
motoras e cognitivas necessárias para guiar. Por que não aplicar esses
testes?
As
forças de segurança deveriam direcionar seus recursos logísticos para
identificar o motorista embriagado, aquele que dirige em zigue-zague,
atropela, etc., que ao ser interpelado por um agente, não consegue
concatenar uma frase com sentido lógico. Sobre esse deve-se fazer pesar a
dureza da lei, não ao motorista que retorna para casa após ter jantado
com a família e ingerido uma quantidade de álcool que nem de longe pode
fazê-lo entrar no rol de motoristas irresponsáveis e que, como gostam de
rotular os juristas, estão em “dolo eventual”, uma vez que assumiram o
risco de matar alguém. Ora, quem após ingerir duas taças de vinho ou uma
cerveja, estará pondo a vida de terceiros em risco? É de uma
arbitrariedade ímpar tratar um motorista que ingeriu uma quantidade
civilizada de álcool como um perigoso risco à sociedade. Esse motorista
está fadado a sofrer uma sanção a partir do momento em que for parado
por um fiscal de trânsito, não há escapatória. Se fizer o teste e for
constatado que ingeriu, mesmo que muito pouco álcool, ficando dentro dos
limites aceitáveis em qualquer parte do hemisfério norte, vai ter a
carteira apreendida, pagará multa e responderá um processo
administrativo. Se por acaso recusar-se a fazer o teste vai ter a
carteira igualmente apreendida, pagará multa e responderá a processo.
Não há distinção no tratamento. Ou será tratado como um bêbado perigoso,
ou será tratado como um bêbado perigoso que não quer fazer o teste.
A
partir de agora, o agente da lei terá o poder de decidir, através de um
exame visual e quem sabe até através daqueles testes que já são
aplicados há décadas nos EUA, se o condutor está ou não alcoolizado.
Isso é ótimo. É uma boa maneira de driblar a negativa dos motoristas
realmente bêbados em fazer o teste. Nada de errado nisso. Mas por que o
agente de trânsito não pode usar esse mesmo discernimento, o que o faz
constatar que o indivíduo não tem condições de dirigir, para chegar à
conclusão de que um motorista que até tenha bebido um pouco, tem plenas
condições de chegar em casa sem botar a vida de ninguém em risco? O
mesmo poder que serve para declarar que um motorista não tem condições
de dirigir, obrigatoriamente tem que servir para atestar que um
motorista que embora tenha ingerido alguma quantidade de álcool, pode
dirigir, pois não demonstra estar com suas habilidades comprometidas.
O
bêbado irresponsável e perigoso, aquele para qual as leis foram feitas e
que nunca irá respeitá-las mesmo assim, justamente por ter a formação
moral degenerada, é conduzido a uma delegacia onde faz o famoso teste do
bafômetro que afere quantias estratosféricas de álcool, em seguida paga
uma fiança miserável e é prontamente liberado. Alguma coisa está errada
na estrutura e na aplicação dessa lei, que trata igualmente os
desiguais. Acaba se tornando uma lei seca, seca de conteúdo, seca
daquilo que mais se espera em qualquer pena que seja aplicada: a
proporcionalidade.
Fonte
Fonte
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Uma vida para doentes mentais
Por Luiz Felipe Pondé
"The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity"
(Willian Butler Yeats, The Seconde Coming )
Vivemos uma vida para doentes mentais. A Romênia já nos deu Cioran, Eliade, Ionesco. Agora nos dá Matéi Visniec, e a É Realizações traduziu várias de suas peças.
Entre elas, "A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais" nos dá a conhecer um medíocre escritor, convidado a contar a história do comunismo a doentes mentais dias antes da morte de Stálin.
Mas, para além do aspecto específico de uma reflexão sobre a conhecida praga do marxismo, chama atenção a reflexão sobre o mal que o autor faz em suas obras, principalmente na face contemporânea e histórica.
Os romenos são grandes "filósofos do mal". Tenho um profundo preconceito por quem acha que não existe o mal. Este tipo de antropólogo de boutique que confunde relativismo cultural com discussão moral séria.
Segundo o que nos dizia Cioran, na Romênia, ninguém se dava ao luxo de suspeitar da existência do mal, porque o fatalismo pessimista daquele povo era por demais "empírico": séculos de violência.
Segundo o autor, o mal em sistemas totalitários é fácil de ser identificado: a perda da liberdade, da privacidade, do horizonte, enfim, do tônus da vontade. Mas, na França em que vive desde seu exílio em 1987, o mal não é tão fácil de ser identificado. Para Visniec, aquilo que as ditaduras marxistas não conseguiram realizar plenamente, a formatação do homem para a condição de gado ou de doente mental, a "liberdade de consumo" das democracias ocidentais estão conseguindo. Este é o "nosso mal".
Como o leitor bem sabe, suspeito de toda crítica à sociedade de mercado quando feita por alguém que supõe conhecer uma melhor forma de vida e que afirma que esta melhor forma passa pelas ideias idiotas que alimenta em sua cabecinha intelectualmente provinciana e autoritária. Mas este não é o caso de Visniec.
Tendo vivido sob o regime totalitário marxista, ele carrega a marca de quem conheceu o mal na intimidade que só a forma banal do cotidiano traz.
Para as sociedade ocidentais funcionarem, temos que comprar. Para comprar no nível que a máquina econômica nos pede, temos que, mais do que comprar, consumir sempre e cada vez mais. Portanto, ao consumirmos "livremente" e com alegria, somos o gado pacificado que os regimes marxistas tentaram criar e não conseguiram. Um cidadão responsável neste mundo afirma sua integridade pagando a conta do Visa em dia.
Só alguém sem alma pode ver um shopping center no fim de semana e não ter vontade de vomitar. Um certo mal-estar com relação à sociedade de consumo é necessário se você quiser manter sua saúde mental em dia. A sociedade que consome sem um mínimo de mal-estar é uma sociedade de doentes mentais.
O problema é que não conhecemos nenhuma experiência histórica real na qual a liberdade política tenha sobrevivido ao extermínio da liberdade de iniciativa econômica.
Por outro lado, a vida humana é precária e tudo tem um custo real. Não conhecemos nenhuma forma de criar ciência, conforto, técnica, direitos humanos sem o uso de dinheiro. E assim voltamos ao consumo: o consumo garante a sobrevivência da economia no nível exigido pelo nosso desejo de conforto, ciência, técnica, direitos humanos.
Visniec se choca com uma Europa que tudo que parece querer é comprar. O Leste Europeu, quando ficou livre, gritou "Prada!". A liberdade conquistada foi para ir ao shopping no fim de semana e comprar toda essa gama de lixo que se compra, com a "boca cheia de dentes esperando a morte chegar...".
Nenhum intelectual parece entender que somos banais como doentes mentais.
Visniec pensa que temos que buscar novas utopias. O interessante é lembrar que a felicidade representada pelo "sou livre para comprar" também foi uma utopia na Europa. O euro é o nome dessa utopia.
Melhor abrirmos mão da ideia de utopia. Quanto mais rápido desistirmos de um mundo melhor, mais rápido perceberemos que a consciência, de fato, é um ônus.
E também, como dizia Yeats, "os melhores não têm convicções enquanto que os piores estão sempre cheios de intensidade passional". O desafio hoje é pensar sem utopias.
The Second Coming (A Segunda Vinda)
Um Poema de Willian Butler Yeats
THE SECOND COMING
TURNING and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?
Tradução:
A SEGUNDA VINDA
GIRANDO e girando na espiral que se amplia
O falcão não consegue ouvir o falcoeiro;
As coisas dissolvem-se; o centro não segura;
A mera anarquia é dissipada para o mundo,
A maré escura de sangue é perdida, e em qualquer lugar
A cerimónia da inocência se afunda;
Aos melhores lhes falta toda a convicção, enquanto os piores
Estão plenos de intensidade apaixonada.
Certamente alguma revelação estará à mão;
Certamente A Segunda Vinda estará à mão.
A Segunda Vinda! Mal saem estas palavras
e uma larga imagem vinda do Spiritus Mundi
Perturba a minha visão: algures nas areias do deserto
Uma forma com corpo leonino e cabeça de homem,
Um olhar fixo em branco e impiedoso como o sol,
Faz mover-lhe as coxas lentas, enquanto sobre ela
Oscilam sombras de pássaros indignados do deserto.
A escuridão cai de novo; mas agora sei
Que vinte séculos de um sono pedregroso
Se precipitaram no pesadelo por um berço que embala.
E qual besta em fúria, a sua hora vem por fim,
Arrastar-se-á até Belém para nascer?
Tradução de Pedro Calouste
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
A campanha antitabagista e o estado totalitário
Sempre
detestei a fumaça de cigarro, talvez por ter sido asmático quando
criança. Por isso, comemorei a lei anti-fumo em lugares fechados.
Hoje,
no entanto, vejo que a batalha contra o tabagismo foi longe demais:
tornou-se uma campanha alarmista, moralista e mentirosa.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O Inferno Lírico de Badou Sarcass X
Eu, Badou Sarcass, anarquicamente único,
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
sábado, 4 de agosto de 2012
Nada a declarar
No inverno de 1077, o imperador Henrique IV fez a peregrinação a
Canossa, curvando-se perante o papa Gregório VII, que o excomungara.
Quase um milênio depois, Lula conheceu a sua Canossa, peregrinando com
Fernando Haddad a tiracolo até o jardim da mansão de Paulo Maluf, que
expôs publicamente sua troca de afagos com a dupla petista. O cargo
federal entregue por Dilma Rousseff a um protegido de Maluf não foi o
preço, mas apenas a parcela de superfaturamento cobrada pelo minuto e
meio de tempo de TV que o PP vendeu ao candidato lulista à Prefeitura de
São Paulo. Conhecedor do valor das obsessões, Maluf impôs a Lula a
quitação da dívida por um gesto de humilhação maior que o experimentado
pelo soberano do Sacro Império: o papa, afinal, dispunha de poder
incomparavelmente superior ao do fugitivo da Interpol.
Luiza Erundina suportaria a aliança com o PP, mas não tolerou a
"forma" - a simbologia - que cercou o compromisso. Ela se retirou da
chapa à Prefeitura e acusou Lula de uma traição "a princípios". É um
recurso de autoilusão, tão patético quanto suas declarações anteriores,
que invocavam a "luta pelo socialismo" para justificar sua parceria com
Haddad. O "princípio" exclusivo de Lula são os interesses de seu sistema
de poder. O lulismo já celebrou Jader Barbalho, José Sarney e Fernando
Collor: o congraçamento com Maluf se inscreve numa linha de coerência e
só pode surpreender observadores que se ausentaram do planeta durante a
última década.
Antonio Donato, coordenador da campanha de Haddad, reagiu ao episódio
criticando uma suposta incoerência de Erundina, não de Lula: "Quem quer
mudar o Brasil se preocupa com o conteúdo, e não com a forma". O seu
"realismo", difundido entre os dirigentes petistas, vai muito além do
"realismo" de José Serra, que queria a aliança com o PP (e se aliou com
Valdemar Costa Neto, o réu do mensalão que comanda o PR), mas não se
sujeitou à exigência de avalizar publicamente a figura de Maluf. Donato
está dizendo que a Canossa de Lula vale a pena, se contribui em algo
para um projeto de poder já esvaziado de qualquer sentido substantivo de
mudança.
Todo o incidente seria apenas tedioso, não fosse a circunstância de
que Erundina ficou só no seu protesto quixotesco. Os intelectuais de
esquerda que apoiam Haddad não ergueram a voz para questionar, analisar
ou explicar o gesto de Lula. Nos dias seguintes à humilhação do jardim,
descortinou-se um resultado de dez anos de poder lulista: a morte da
crítica de esquerda.
Antonio Cândido, Gabriel Cohn e Eugênio Bucci preferiram nada
declarar. Mario Sergio Cortella sugeriu "tocar em frente", após uma
"fase de reflexão", mas não ofereceu nenhuma "reflexão". Paul Singer
justificou o silêncio como um dever político: "Não tenho interesse em
tornar pública qualquer opinião. Vai ficar entre mim e mim mesmo".
Marilena Chauí optou por emular o antigo ministro da Justiça da
ditadura, Armando Falcão, cujo célebre "nada a declarar" veiculava seu
rancor contra a imprensa: "Não vou dar entrevista, meu bem. Não acho
nada. Nadinha. Até logo".
Ouvi, informalmente, de uma das "intelectuais tucanas" que se
converteram aos encantos da candidatura de Haddad, uma versão da
justificativa medíocre posta em circulação por dirigentes petistas:
"Maluf por Maluf, Serra também queria". Emir Sader, que dubla como
intelectual, mas opera, efetivamente, como militante, expressou o
sentido pragmático do denso silêncio geral: "O fundamental é derrotar a
'tucanalha' em São Paulo. Eu posso gostar ou não do Maluf, mas vou fazer
campanha para o Haddad do mesmo jeito".
Não é verdade que os intelectuais de esquerda jamais criticaram Lula
ou o PT. A crítica existia, pública e intensa, antes da chegada de Lula
ao Planalto. Continuou depois, até o "mensalão", um pouco mais amena,
dirigida contra a escolha de José Alencar para a vice-presidência e as
"políticas mercadistas" de Henrique Meirelles no Banco Central. Os
intelectuais de esquerda justificaram sua adesão ao governo Lula sob a
premissa de que, aos poucos, o lulismo se moveria para a esquerda,
rompendo a teia de "alianças pragmáticas" indispensáveis no início do
"processo". A profecia não se cumpriu - e, ao contrário, o lulismo se
identificou cada vez mais com os aliados conservadores. A crítica,
contudo, experimentou progressiva rarefação, até desaparecer.
Quanto mais o lulismo se adapta à ordem tradicional, menos é
criticado pelos intelectuais de esquerda. A equação, superficialmente
paradoxal, solicita explicação. Uma sedutora hipótese de solução é
imaginar que tais intelectuais estão imbuídos pelo nobre sentimento de
"patriotismo partidário". Instado a se subordinar às decisões de um
partido comunista que transitava para o controle de Stalin, o dissidente
Trotsky invocou a marcha da História rumo ao Futuro: "Certo ou errado, é
o meu Partido. Não se pode ter razão contra o Partido ou fora dele".
Singer quase repetiu Trotsky - e deve ter pensado na frase do
revolucionário russo ao pronunciar a sua, destituída de cores épicas.
A hipótese, porém, não tem sustentação lógica ou histórica. Trotsky
não era um intelectual acadêmico, mas um dirigente bolchevique. Na
Rússia, desenrolava-se uma revolução social na moldura da crise geral
europeia aberta pela Grande Guerra, não uma eleição municipal no quadro
da democracia. A explicação prosaica para a renúncia à crítica é que os
intelectuais de esquerda brasileiros encontraram seus lugares à sombra
da frondosa árvore do poder lulista. Eles se acostumaram com os
benefícios profissionais e, sobretudo, com as "rendas de prestígio"
auferidas pela proximidade do governo. No terceiro mandato lulista, e
diante da perspectiva de um quarto, interiorizaram como hábitos as
normas de elogiar os poderosos e sustar, na hora certa, a inclinação à
crítica. A evidência disso é obra de Maluf.
Por Demétrio Magnoli
quarta-feira, 18 de julho de 2012
As Gêmeas
Por Nelson Rodrigues
Estava tomando
café em pé quando viu passando, na calçada, a pequena que começara a namorar na
véspera. Largou a xícara, largou tudo e atirou-se no seu encalço, quase como um
maluco. Tropeça num cavalheiro, esbarra numa senhora, e vai alcançar a menina
pouco adiante. Caminha lado a lado e faz a alegre pergunta:
- Como vai
essa figurinha?
A garota, que
era realmente linda, estaca por um segundo. Olha-o, de alto a baixo, com
surpresa e susto. Em seguida, vira o rosto e continua andando. Osmar,
desconcertado, apressa o passo e a interroga "Mas que é isso? Não me
reconheces mais?". Nenhuma resposta. E ele; num espanto misturado de
irritação: "Que máscara é essa?". Silêncio, ainda Nessa altura dos
acontecimentos, a menina só falta correr.
Então, Osmar
perde a paciência; segura o braço da fulana: "Olha aqui, Marilena "
Ao ouvir o nome, ela pára: vira-se para ele, mais cordial, quase alegre;
encara-o confiante:
- Já vi tudo!
- Tudo como?
Ela parece
aliviada.
- Eu não sou
Marilena, Marilena é minha irmã.
Pasmo,
exclama: "Meu Deus do céu! Que coisa!" A garota sorri divertida com a
confusão:
- Eu sou Iara.
Osmar faz a
pergunta desnecessária:
- E são
gêmeas?
Na véspera,
conhecera Marilena. Fora um desses flertes deliciosíssimos de ônibus. Viajaram
em pé, lado a lado, cada qual pendurado na sua argola. Quando saltaram, no
mesmo poste, era evidente que a simpatia era recíproca e irresistível. Marilena
deu-lhe telefone, endereço, tudo. Só não lhe dissera por falta de oportunidade
que tinha uma irmã gêmea, Iara. Quando se encontraram mais tarde, Osmar contou
o episódio e dramatizou:
- Sabe que eu
estou com a minha cara no chão? Besta! Semelhança espantosa! Assim nunca vi,
puxa! Como é que pode hein?
Sentaram-se
num banco de jardim. E, então, Marilena contou que o equivoco de Osmar não
seria o primeiro, nem o último. Mesmo amigos e até parentes incidiam por vezes
na mesma confusão. A única coisa que diferia entre as duas era um bracelete que
Iara usava e a outra não. Ainda na sua impressão profunda, ele observa:
- Irmãs assim,
gêmeas, são muito amigas, não são?
Marilena
parece vacilar:
- Depende.
Ele insiste:
"E vocês?". Marilena resiste:
- Você está
querendo saber muito. Vamos mudar de assunto que é melhor.
O DRAMA
Desde o primeiro momento, Osmar julgou descobrir em Marilena a índole, a vocação, o destino da esposa. Uma semana depois, avisava em casa e no emprego, em toda parte: "Vou ficar noivo! Vou me casar!". No fim de quinze dias começa a freqüentar a casa de Marilena. Mais tarde, ou seja, dois meses, e fica noivo. Os amigos batiam-lhe nas costas:
- Que rapidez,
que pressa! Bateste todos os recordes mundiais de velocidade!
Pilheriava:
- O negócio,
aqui, é a jato!
Passava todos
os seus momentos de folga na casa da noiva. E, apesar de ver as duas irmãs
diariamente, continuava fazendo o mesmo espanto: "Como é possível, meu
Deus, duas criaturas tão parecidas!". E quando saia com Marilena e Iara,
fazia de próprio o comentário jocoso: "Eu me sinto uma espécie de noivo de
duas!".
Um dia, porém, Marilena pôs-lhe a mão no braço:
- vou te pedir
um favor Não brinca mais assim. É um favor. Não brinca mais assim. É um favor
que te peço.
- Por quê?
E ela:
- Se tu
soubesses como me irrita essa semelhança' Estou cansada, farta, de ser tão
parecida com Iara! - Pausa e acrescenta, com surdo sofrimento: - Eu não queria
me parecer com ninguém! Com mulher nenhuma!
NOVO PEDIDO
Dai a dias,
Marilena faz novo pedido: "Não quero que você tenha muita intimidade com
Iara, sim?". Osmar, que achava abominável qualquer briga entre parentes,
sobretudo entre irmãos, tomou um choque. Pigarreia e indaga: "Mas vocês
não são tão amigas?". Marilena crispa-se diante dele: "Amigas, nós?
Nunca!". Pela primeira vez, admite:
- Nunca
brigamos, nunca discutimos e ela me trata até muito bem. Mas me odeia, ouviu?
Eu sei que ela me odeia!
Agarrada ao
noivo, Marilena fala do sentimento turvo e constante que não se traduz em atos,
em palavras. Explica: "Iara nunca me disse nada, nada, mas...". Osmar
pigarreia, assombrado: "Acho que você está exagerando!". Fosse como
fosse, ele procurou, com o máximo de tato, discrição, afastar-se da cunhada.
Mas não conseguia acreditar que Iara, tão cordial com todos e amorosíssima com
Marilena, pudesse odiar alguém e muito menos a irmã. Por essa época, Iara
apanhou uma gripe muito forte, quase uma pneumonia, venceu a crise, é certo;
mas sua convalescença constituiu um novo problema. Depauperada, numa tristeza
continua que a calava, só falava em morrer. O médico da família coça a cabeça:
"Esgotamento. O golpe é ir para fora". O casamento de Marilena estava
marcado para próximo. A mãe pergunta: "Não assiste ao casamento?".
Iara responde:
- Não se
incomode, mamãe, que eu não vou fazer falta. E se eu ficar aqui não sei, não;
acho que vou acabar fazendo uma bobagem!
A família não
teve outro remédio senão mandá-la pata a fazenda de um tio em Mato Grosso.
Muito enfraquecida, Iara suspirou:
- Ótimo que
seja em Mato Grosso. Quanto mais longe melhor.
BODAS
Quando o avião
que a levava partiu, Marilena vira-se para o noivo: "Graças, meu Deus,
graças!". Essa alegria pareceu a Osmar cruel, quase cínica. Era, porém,
evidente que a ausência da outra a fazia felicíssima: "Agora, sim",
dizia, "agora eu sei que não me acontecerá nada!". E, de fato, um mês
depois casavam-se no civil e no religioso. Como presente de casamento, haviam
ganho uma pequena casa, lírica e nupcial, em Lins de Vasconcelos. Ás dez horas
da noite, deixam a casa dos pais da noiva e vão para a nova residência. Estão
solitários como Adão e Eva. Ela, transfigurada, avisa: "Depois te
chamo!". Entra no quarto e, ainda de noiva, fecha a porta atrás de si. Do
lado de fora, ele espera, fumando, impaciente. Quinze minutos depois, bate. De
dentro, vem a resposta: "Já vai". Mais quinze minutos e Marilena
entreabre: "Pode vir, meu bem". Horas depois, quando já amanhecia,
ele, no seu deslumbramento, passa a mão no braço da pequena. Súbito, senta-se
na cama. Balbucia, apavorado: "O bracelete!". Ela responde, muito doce:
- Eu não sou
Marilena, eu sou Iara.
Fora de si,
ele se levanta, procura debaixo da cama, dos móveis; derruba uma cadeira; e, no
meio do quarto, olha em torno, sem compreender. Então, Iara aponta:
"Ali!". Como um louco, ele corre ao guarda-vestidos; num uivo abre as
duas portas. Mas recua, numa histeria pavorosa. Lá de dentro, vem sobre ele o
cadáver de Marilena, vestido de noiva. Na cama, Iara está acendendo um cigarro
americano.
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