terça-feira, 20 de dezembro de 2016
O Inferno Lírico de Badou Sarcass XI
Não me cobrem versos cálidos ou
Palavras suaves sobre uma vida feliz.
Eu não posso! Eu chafurdo na lama,
Na poeira que me faz humano, no sopro
Do nada que constrói meu ser.
Há muitos que cantam o pôr-do-sol,
É preciso que alguém cante o chão.
Não quero colecionar sorrisos imbecis
Para mostrar o quanto valho.
Não esperem um hálito fresco
Desta boca que cheira a merda.
sábado, 10 de dezembro de 2016
TORRENT - O SÉTIMO SELO: uma confissão com a Morte
ANTONIUS
BLOCK: Eu quero confessar o melhor que eu posso...Mas meu coração é vazio. O
vazio é um espelho. Eu vejo meu rosto... E sinto delírio e horror. Minha
indiferença aos homens fechou-me totalmente. Eu vivo agora em um mundo de
fantasmas... um prisioneiro em meus sonhos.
MORTE: Ainda
assim, você não quer morrer.
ANTONIUS
BLOCK: Sim, eu quero.
MORTE: O
que você está esperando?
ANTONIUS
BLOCK: Conhecimento.
MORTE: Você
quer uma garantia.
ANTONIUS
BLOCK: Chame o que você quiser. É tão difícil conceber Deus com os sensos de
uma pessoa? Porque ele tem de se esconder numa neblina de vagas promessas e
milagres invisíveis? Como iremos acreditar nos que acreditam quando não
acreditamos em nós mesmos? O que será de nós que queremos acreditar, mas não
podemos? E quanto àqueles Que não podem ou não irão acreditar? Porque não posso
matar Deus dentro de mim? Porque ele vai vivendo em um sofrido e humilhado
jeito? Eu quero tirá-lo do meu coração... Mas ele ainda continua uma realidade
assustadora que eu não posso me livrar. Está me ouvindo?
ANTONIUS
BLOCK: Eu quero conhecimento. Não crença. Não suposições. Mas conhecimento. Eu
quero que Deus ponha sua mão, mostre seu rosto, fale comigo.
MORTE: Mas
ele é mudo.
ANTONIUS
BLOCK: Eu choro para ele no escuro, mas parece não ter ninguém lá.
MORTE: Talvez
não tenha ninguém lá.
ANTONIUS
BLOCK: Então a vida é um terror sem sentido. Nenhum homem pode viver como a
Morte e saber que tudo é nada.
MORTE: A
maioria das pessoas não pensa nem na morte ou no nada.
ANTONIUS
BLOCK: Até que eles chegam ao final da vida e veem a escuridão.
MORTE: Ah,
esse dia.
ANTONIUS
BLOCK: Eu percebo. Devemos fazer de nosso medo, um ídolo... e chamá-lo de Deus.
MORTE: Você
não é fácil.
ANTONIUS
BLOCK: A Morte me visitou essa manhã. Estamos jogando xadrez. Esse adiamento me
permite fazer uma tarefa vital.
MORTE: Que
tarefa?
ANTONIUS
BLOCK: Minha vida inteira tem sido uma procura sem significado. Digo isso sem
amargura ou auto condenação. Eu sei que é o mesmo para todos. Mas eu quero usar
meu adiamento para uma ação significante.
MORTE: Então
você joga xadrez com a morte?
ANTONIUS
BLOCK: Ele é um tático bem habilidoso mas ainda não perdi uma peça.
MORTE: Como
você pode ganhar da morte?
ANTONIUS
BLOCK: Com uma combinação de bispos e cavalos. Irei quebrar seu flanco.
[A morte
até então de costas, se volta]
MORTE: Eu
devo me lembrar disso.
ANTONIUS
BLOCK: Traidor! Você me trapaceou! Mas vou arranjar um jeito.
MORTE: Continuaremos
nosso jogo nos dormitórios.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
A obra prima de Mussorgsky
Quadros de uma exposição (1873) de Modest Mussorgsky, com a orquestra filarmônica de Viena sob a regência do grande maestro Gustavo Dudamel. Uma dos grandes registros dessa obra tão importante da música moderna.
Segundo Otto Maria Carpeaux "são peças poéticas, realistas, humorísticas ou patéticas, de linhas melódicas originalíssimas, ritmos irresistíveis, modos estranhos como saídos da memória atávica da gente russa".
Vale lembrar que os "Quadros de uma exposição" foram compostos inicialmente para piano. Só muito mais tarde o compositor Maurice Ravel fez a orquestração da peça.
Enjoy it!
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
O Infinito atomístico
... O defeito que vemos, em algo que é, é o resultado de que esse algo não é tudo o que é. Deus é ainda mais real do que o homem; até mais real que a matéria; pois Deus, com todos os seus poderes, em todos os instantes, é imortalidade em ação."Santo Tomás de Aquíno", G. K. Chesterton; pag 150
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
O adeus de Oliver Sacks
Nunca fui um admirador do inglês Oliver Sacks, mas confesso que fiquei comovido ao ler seu texto de despedida publicado no New York Times. Os moribundos são, em geral, de uma sinceridade desconcertante. Sacks relembra Hume e fala com sobriedade e nobreza sobre a própria morte. Eis um homem.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
sábado, 31 de janeiro de 2015
Balzac I
Bem, propus a mim mesmo ler de cabo a rabo "A Comédia Humana", de Balzac. Ao longo da leitura, com a facilidade que o kindle traz, estou selecionando alguns bons trechos de cada romance. Eis alguns:
"... a admiração é sempre uma fadiga para a espécie humana."
O BAILE DE SCEAUX
"... a felicidade conjugal não se alicerça tanto sobre qualidades brilhantes e fortuna quanto sobre uma estima recíproca."
O BAILE DE SCEAUX
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
É Proibido Proibir
Por Mario Vargas Llosa
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
sábado, 27 de setembro de 2014
Eu cantarei
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
I
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.
domingo, 8 de junho de 2014
Degradação da vida e da morte
Por Nelson Rodrigues
1. Certa vez, numa de minhas “Confissões”, escrevi, por outras palavras, o seguinte: – “Na hipótese de uma guerra nuclear, acho que perderia pouco, muito pouco”. Eu disso isso e não sei, até hoje, se me arrependo de o ter dito. De vez em quando, fico a pensar no fim do mundo. imaginemos: – não há mais vida humana, foi raspado, com palha de aço, todo e qualquer vestígio de vida humana. Não sobrou nem mesmo uma folha de alface, ou de avenca, ou de couve. Não mais nada, nem micróbios. Não existiriam nem mesmo as estrelas, porque ninguém viveria para vê-las.
sábado, 17 de maio de 2014
sábado, 8 de março de 2014
Um ano depois da morte de Chávez, a cubanização forçada da Venezuela
Qual é o legado de Hugo Chávez? Ao fim e ao cabo, governou ao seu capricho durante catorze anos (1999-2013). O mais longo governo da história da Venezuela, à exceção de Juan Vicente Gómez (1908-1935), outro militar de mão de ferro que morreu no comando. Digamos rapidamente: a herança que Chávez deixou a seus atribulados compatriotas foi a cubanização da Venezuela.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O Critério Idiota
O que está havendo com o mundo? Ao invés de julgarmos as pessoas por seus méritos, estamos julgando pelo seu nível de “coitadisse”: quanto mais o sujeito é um “coitado” mais ele parece ser digno de todas as honras. Não há nenhuma grandeza em ser miserável, como muitos parecem acreditar. Vale lembrar o trecho de Bertolt Brecht:
“Não há sentido na nossa miséria; fome não é prova de fortaleza, é apenas não ter comido!... Esforço não é vergar as
costas e arrastar, não é mérito!...
A miséria não é condição das virtudes, meus amigos!... E não me venham com a beleza das riquezas que fomos capazes
de produzir!...
Se a nossa gente fosse abastada e feliz, aprenderia as virtudes da abastança e da felicidade. Mas hoje, as virtudes dos
pobres nascem... da pobreza!
Eu abomino isso! Sim, abomino! Ou vocês querem que eu minta a nossa gente?”
Pena que as esquerdas de nossos dias tenham descoberto muitas “virtudes” na miséria e façam de tudo para mantê-la e até para elevá-la à categoria de critério último de julgamento. Esse critério ainda nos levará a afirmar que qualquer garoto que batuque um tambor é mais importante que Beethoven.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Bakunin contra Marx
“(...) os marxistas dizem que esta minoria será formada por trabalhadores. Sem dúvida se tratará de antigos trabalhadores que,
uma vez que se convertam em governantes ou representantes do povo, deixam de
ser trabalhadores e começam a olhar com desdém para a classe trabalhadora desde o ponto de vista da autoridade de estado, pois representam não o povo, mas sim a eles
mesmos e seu próprio desejo de governar os demais. Qualquer um que duvide disso
não sabe nada da natureza humana... Os termos “socialista científico” e “socialismo
científico”, que encontramos
incessantemente na obra de lassalianos e marxistas, bastam para provar que o
denominado governo do povo não será mais que um despotismo sobre as massas,
exercido por uma nova e pequena aristocracia de reais ou falsos “cientistas”. O
povo, inculto, estará completamente isento da tarefa de governar e se verá
forçado a formar parte do rebanho dos governados. Pequena emancipação!... Eles
(os marxistas) pensam que só uma ditadura, a sua por suposto, pode trazer a
liberdade ao povo; nós respondemos que
uma ditadura no pode ter outro fim que perpetuar-se a si mesma, e que não pode
engendrar nada além de escravidão no povo a ela submetido. A liberdade só pode
criar-se a partir da liberdade, ou seja, a partir de todo o povo e pela livre
organização das massas trabalhadoras desde baixo”. ( Bakunin, Estatismo y anarquia. Citado por Leszek Kolakowski em Las principales corrientes del marxismo. Tradução de Badou Sarcass)
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Toda nudez será castigada
Prostituta
e/ou santa? É a pergunta a ser feita em relação a personagem Geni da famosa
peça "Toda Nudez Será Castigada", escrita por Nelson Rodrigues em 1965.
Já
havia lido a peça e assistido ao filme homônimo
feito por Arnaldo Jabor em 1973, mas confesso que a montagem da Cia.
Arlecchino dirigida por Kalluh Araújo impressionou-me profundamente. As
atuação brilhantes de Cléo Carmona (Geni) e Paulo Rezende (Patrício) dão
um sabor especial ao espetáculo.
A peça mostra o drama de Herculano, um viúvo que, tendo
prometido ao filho nunca mais se envolver com uma mulher após a morte da
esposa, acaba se apaixonando pela prostituta Geni, graças as artimanhas de seu
cínico irmão Patrício. O tom dramático da peça gira em torno do problema do
sexo como força avassaladora capaz de destruir a ordem instaurada. Ao mesmo
tempo, é também o que redime o ser humano. Geni, personagem que lembra muito a
Sônia (prostituta de “Crime
e Castigo” de Dostoiévski, livro que Nelson admirava muito), é aquela que arruína
e redime o destino de todos os outros personagens: Herculano, As três tias
(que, como Moiras, buscam tecer o destino dos sobrinhos) e o jovem Serginho. O
único que passa aparentemente imune a qualquer transformação é o irmão de
Herculano, Patrício, o niilista da peça, o personagem para o qual não existe
salvação.
O cenário da peça merece uma atenção especial: três cilindros
de metal que, quando girados, revelam cada um dos ambientes da peça. A trilha
sonora vai da Ave Maria
de Schubert a Waldick Soriano. Em um momento da peça as três tias cantam juntas
“O Fortuna”, trecho de
Carmina Burana de Carl Orff, o que fortalece a analogia com as mitológicas Moiras.
Em certo trecho de “Crime e Castigo”, Raskólnikov se ajoelha
aos pés da prostituta Sônia e, ao ser indagado por ela acerca daquela ação,
responde Raskólnikov: “Eu não me ajoelhei diante de ti, mas diante de toda a
dor humana”. Impossível não recordar tal cena quando, ao fim da peça, Geni
aparece crucificada, como um novo Cristo, “qui tollit peccata mundi”. A peça
possui uma força rara de se ver no teatro brasileiro atual. Vale a pena assistir.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Ninfomaníaca, ou o sexo como inferno
Assisti no último do domingo ao novo filme do diretor dinamarquês Lars von Trier, "Ninfomaníaca". Trata-se de um excelente filme. É um dos únicos dois filmes que conheço (o outro é "Shame", de Steve McQueen) que trata o sexo não como uma panaceia redentora e sim como o INFERNO que ele é.
No filme, Joe (personagem vivida por Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca que vive a consciência de sua tragédia, conta sua história para um velho que lhe oferece ajuda. Ela, mesmo de uma perspectiva "não-religiosa", insiste em considerar-se uma pecadora; uma pessoa má. Conta suas "aventuras": a amizade com pai; os amantes; as feridas que provocou. Sempre com a consciência do "vício" e da impossibilidade de lutar contra a vontade cega que lhe tirava qualquer possibilidade de controle.
Impossível não relacionar a personagem principal do filme aos personagens esmagados pelo vício e pela culpa que aparecem nos romances de Dostoiévski. Impossível não lembrar de Marmeládov e seu alcoolismo suicida.
Ao contrário do que pensam alguns progressistas, o sexo não liberta, mas sim escraviza e, no extremo, desumaniza.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Os marxistas sebentos e os ricos fedorentos I
Se quiséssemos delimitar num campo linear, muito simples e primário, os dois grupos que são a causa da intranquilidade social dos países livres ainda retardados em seu progresso, diríamos que, de um lado, estão os ricos fedorentos e, do outro, os marxistas sebentos.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
PEC de cu é rola
Uma visão muito bem humorada das "jornadas de junho", por Paulo Bono do blog Espalitando Dente
Foi tudo
muito rápido. Eu estava em casa com o peito cheio de dor e gases. Estrangulava
a tarde com bobagens na internet enquanto aguardava por um maldito arroto. Foi
quando vi esse vídeo do Pelé dizendo para esquecermos as manifestações e
apoiarmos o time do Felipão. Só mesmo a Xuxa para dar a buceta a um cara
desses. De alguma forma, aquele vídeo me fez mal. Então peguei o telefone,
liguei pro Guismo e disse – “Tô dentro”. Bati a porta e desci a rua. Passei num
desses armarinhos coloridos e pedi uma cartolina e uma caneta Piloto. Escrevi a
frase enquanto a putinha do balcão observava suas unhas. “Só se fala nesse
protesto” – ela disse – “mas é contra o quê mesmo?”. Eu disse – “Vamos fuder a
bastilha, baby!”. Depois peguei um ônibus e logo estava no Campo Grande já
arrependido de ter deixado meu sofá para trás.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Salto No Escuro
Um belo poema de Ângelo Monteiro
Para o salto que anelo a vida é tanta
Que não conto no tempo o seu pulsar:
Pois o vento proclama o jogo errante
Com as flores e as nuvens ao passar.
No arremesso da corda para o salto
Pouco interessa aonde vá cair:
Se no mar ou no escuro firmamento
As estrelas e as ondas são porvir.
Digam o que disserem, a beleza
É inteligente e por isso não cansa:
E no jogo com ela só quem perde
É quem por medo foge e não avança.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Boas Bestas
Quero te assustar: dar a cara ao teu soco,
beijar teu rosto, beber teu suor,
amar teu ódio.
E, se um dia o tempo pesar,
estaremos juntos,
embrigados de um apetite
voraz, só então
Faremos a revolução.
The Dying Heart
“Time drops in decay,
Like a candle burnt out”
(Willian Butler Yeats)
Este coração que sangra agora,
Já não sangra por amor ou glória,
É o sangrar da enfermidade:
A Agonia da liberdade
No peito de quem chora.
sábado, 10 de agosto de 2013
O Ópio dos Intelectuais
"Em rigor, o ateísmo acredita que sabe, mas não sabe que acredita"
Por João Carlos Espada
Uma ‘nova’ moda percorre a Europa: a moda do ateísmo militante. Na inevitável França, multidões assistem às palestras do novo «philosophe» de serviço: Michel Onfray, autor de ‘Traité d’athéologie’, um «best-seller» entre os nativos, bem como em Espanha e Itália. A sua ‘Universidade Popular de Caen’, onde não há exames nem diplomas(sic), mas existe o inevitável subsídio do governo local, fiéis atentos disputam lugares nos auditórios. A doutrina oficial chama-se aí ‘hedonismo ético’.
Uma ‘nova’ moda percorre a Europa: a moda do ateísmo militante. Na inevitável França, multidões assistem às palestras do novo «philosophe» de serviço: Michel Onfray, autor de ‘Traité d’athéologie’, um «best-seller» entre os nativos, bem como em Espanha e Itália. A sua ‘Universidade Popular de Caen’, onde não há exames nem diplomas(sic), mas existe o inevitável subsídio do governo local, fiéis atentos disputam lugares nos auditórios. A doutrina oficial chama-se aí ‘hedonismo ético’.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
NUMA ESPERANÇA QUE RESULTOU VÃ
Um maravilhoso poema do Frei Luis de León
Foge, felicidade, de meu peito;
que engano te remete novamente
à fúria de um
passado sem proveito?
Guarda memória do tempo inclemente,
quando aos
olhos do povo, desterrada,
foste acusada repentinamente.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
A esquerda e os mitos difamatórios
Por Olavo de Carvalho
No show de ignorância dado à Folha de S. Paulo, em
entrevista, pelos líderes da FLIP (Festa Literária Internacional de
Paraty), recém encerrada, a estrela maior foi sem dúvida o sr. Milton
Hatoum, que, incapaz de lembrar o nome de um só escritor brasileiro
importante, que fosse de direita, ainda completou a performance com esta
maravilha: "Diziam que Nelson Rodrigues era, mas discordo. Era
provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos."
terça-feira, 25 de junho de 2013
VICO VIVO
A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale, o parque municipal de Nápoles. Perto do mar, a figura de pedra, corroída pelo tempo, olha o panorama do Posilippo, da ilha de Capri, do Vesúvio, ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica, onde os gregos, os romanos, os longobardos, os árabes, os alemães, os franceses, os espanhóis deixaram os seus traços; paisagem que sonha com o passado, e com um futuro incerto. Como a história, também aquela estátua, na penumbra das árvores velhíssimas, parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos; contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento, que não sabem quem foi aquele que lhes traçou, a elas também, os implacáveis destinos futuros.
Como sabem morrer as mulheres na ópera!
Morte de Electra na ópera "Idomeneo", de Mozart:
Morte de Abigaile na ópera "Nabucco", de Verdi:
Morte de Abigaile na ópera "Nabucco", de Verdi:
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Badou às Portas Do Inferno
(ou Epitáfio Para A Esperança)
Cá está Badou, com o vento a soprar-lhe os cabelos.
Um homem cuja solidão violou o sacro tempo,
A quem a loucura tornou um deus de areia.
Sobrevivo ainda, é verdade: até quando?
Reconheço as desventuras, a vontade deles.
Sou Ulysses contra a fúria de um mar cor de vinho.
Minha odisseia urbana, meu tempo perdido:
Ando como um escravo que canta ao pensamento
O coro dos vencidos, suspiros pela pátria usurpada.
Poderá alguém dizer: “acaso deliras?”
Mas, no subsolo, Badou constrói sua torre de marfim,
Brada aos quatro ventos a mediocridade da raça.
O “território livre” se encontra com o Construtivismo na Terra do Nunca
Desde que
ingressei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1992,
intriga-me ouvir que a USP e, por conseguinte, o Largo, constitui
território livre. Sempre tentei compreender o que essa liberdade
significaria.
A MULTIDÃO AFRODISÍACA
Por Nelson Rodrigues
Nunca me esqueço de uma conversa que tive, há tempos, com o Plínio
Marcos, o autor mais representado do Brasil. Hoje, é difícil, senão impossível,
descobrir um teatro que não tenha o seu nome, na frente, como uma manchete. Mas
eis o que me disse o Plínio Marcos: — “Eu queria representar no Maracanã, para
200 mil pessoas!”.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Badou às portas do paraíso
"As palavras do poeta volteiam incessantemente em redor das portas do paraíso e batem implorando a imortalidade."
Goethe
No caos em que choro
Meus deuses de outrora.
Ao distante céu imploro,
Rogo àquela musa ignara
Que pelos ares abandone
Um ou outro verso infame
Que faça, em Badou, o milagre
De enterrar a poesia certa,
Ainda que ele nunca espere
A porta do paraíso aberta.
Goethe
No caos em que choro
Meus deuses de outrora.
Ao distante céu imploro,
Rogo àquela musa ignara
Que pelos ares abandone
Um ou outro verso infame
Que faça, em Badou, o milagre
De enterrar a poesia certa,
Ainda que ele nunca espere
A porta do paraíso aberta.
Tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre
Por Thiago Moraes
Um
dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso
país é a falta de compromisso dos políticos com as idéias que dizem
defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal
apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para
quem é católico isso até acarreta uma complicação extra, pois para
seguir os ensinamentos da Igreja em matéria política se fica dependendo
de uma reflexão sobre o que as coisas são na realidade, já que não é
prudente fazer uma aplicação direta baseada em rótulos.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Eles, os medíocres
Quem, calado, abomina
Os fazeres do homem
Medíocre que parte para
A luta e leva no rosto
A poeira do chão,
Sabe o que é
Ser maior de espírito
Contra míseros corvos
Que usurpam eternidade.
Badou percorreu casas,
Adentrou mulheres,
Violou virgens pelos quatro
Cantos da vida eterna:
Amém!
Os fazeres do homem
Medíocre que parte para
A luta e leva no rosto
A poeira do chão,
Sabe o que é
Ser maior de espírito
Contra míseros corvos
Que usurpam eternidade.
Badou percorreu casas,
Adentrou mulheres,
Violou virgens pelos quatro
Cantos da vida eterna:
Amém!
domingo, 9 de junho de 2013
O Inferno Lírico de Badou Sarcass X
Eu, Badou Sarcass, anarquicamente único,
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
Religiosamente ateu...
Vivo como se estivesse às vésperas da morte,
Ou talvez, da vida plena.
Eu, amante do demônio,
No qual não acredito nem um pouco.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Oscar, o stalinista
Certa vez, numa entrevista concedida à revista “Playboy”, Gilberto Freyre - autor de “Casa Grande & Senzala”,
o livro clássico que revelou a importância do negro na formação
histórica da sociedade brasileira - incluiu o arquiteto Oscar Niemeyer
na sua lista de sujeitos proeminentes que considerava burro. Aliás, mais
do que burro, o mestre de Apipucos o tinha na conta de sujeito chato e
muito ignorante, um tipo de pessoa com a qual seria sempre difícil
manter-se uma conversa interessante. (Ah, agora me lembro: a entrevista
foi concedida ao jornalista Ricardo Noblat, então repórter da Veja, ou coisa assim, no início dos anos 80).
quinta-feira, 21 de março de 2013
Momento
Um poema de Hélio Pellegrino
Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silêncio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!
A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das árvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!
Todas as coisas - em clausura - cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.
segunda-feira, 18 de março de 2013
O mal na obra de Lars von Trier
Quem quiser se divertir no cinema não vá ver os filmes de Lars von
Trier. Mas quem quiser discutir antropologia filosófica e a questão do
mal no mundo é lá que deve ir. A coragem artística do diretor norueguês
não tem limite. Sua habilidade com a câmara é digna de um Kubrick. Penso
que ele fez (faz) a mais correta e completa crônica de nossos tempos, a
fisiologia da alma nesse maldito século XXI. Não por acaso nos filmes a
questão psicológica (e psiquiátrica) tem relevo. Psiquiatria: ciência
da alma.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Uma Banana Como Merenda
Por Nelson Rodrigues
Eu e o Hélio Pellegrino temos um amigo que é o que se chama um erudito. E o pior é que se trata de um caso recente e diria mesmo de fulminante erudição. A princípio suspeitei de uma deslavada escroqueria intelectual. E aqui começa o mistério que desafia todo o meu raciocínio e toda a minha intuição. Do dia para a noite o semi-analfabeto aprendeu não sei quantos idiomas.
Já não digo francês, que todos falam, menos eu. Não. O rapaz declamava Goethe em puríssimo alemão. E, certa noite, passei pelo seu quarto, na praça Onze (ele mora no alto, junto à clarabóia, como no tempo de Paulo de Koch). Entro e o surpreendo, no meio de três ou quatro, em pé, recitando o padre-nosso em grego. Saí dali e fui ligar para o Hélio Pellegrino. Disse-lhe, sinceramente esmagado: — “Hélio, nós somos dois analfabetos!”.
Eu e o Hélio, cada vez mais inferiorizados, temos seguido pelos jornais a carreira de tão vasta e súbita erudição. E eu fico a resmungar, na irritação da minha impotência: “Como sabe! Como lê! Como cita!”. Até que, de repente, baixou-me uma luz e descobri toda a fragilidade daquela monstruosa estrutura. Aquilo era uma catedral de pauzinhos de fósforos, sim, um gótico de palitos.
Certa manhã, fui para a máquina e bati minha primeira carta anônima. Se bem me lembro, dizia mais ou menos o seguinte: — “Leia pouco, pelo amor de Deus, leia pouco!”. E assim, nesse tom de salubérrimo descaro, fui dizendo tudo. Aconselhei-o a voltar ao Dumas pai, a Ponson Du Terrail, a Michel Zevaco, Eugène Sue e outros folhetinistas de boa cepa. Acabei a carta, enfiei-a no envelope e tive a desfaçatez de mandá-la registrada.
Agora, a revelação: — em que pese o evidente traço caricatural, não estou longe de pensar assim. Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.
Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.
(Divaguei demais e desculpem.) De Dostoievski passo à minha infância. Há bastante de Dostoievski, bastante de Dickens, na rua Alegre, em Aldeia Campista. Não será a pura semelhança episódica, Não. É uma semelhança, digamos assim, de atmosfera. Sinto que parte de minha infância está inserida, difusa, volatilizada em certas páginas de Dickens ou Dostoievski. Por exemplo: — eu poderia fazer, com minha passagem pela escola pública, uma antologia de humilhações. (Está comigo, enterrado em
mim, um perene menino humilhado.)
mim, um perene menino humilhado.)
A escola era bem na esquina da rua Alegre com Maxwell. (Quando Lili morreu, eu achava absurda a vida sem Lili. Lembro-me de que, depois do enterro, eu mudava de calçada para não passar pela sua porta.) Comecei a sofrer no recreio. Já disse que levava para a escola, como merenda, uma imutável banana. No primeiro dia, bateu a sineta do recreio e lá fui eu. O pátio se inundou de meninos e meninas. Apanhei a banana e, sem pressa, comecei a descascá-la. Fazia isso meio solene, como se descascar banana exigisse uma técnica, uma arte, não sei que virtuosismo.
Descascada a banana, eu não a mastigava imediatamente. Não. Com delicada paciência, punha-me a chupá-la, como hoje se faz com o Chicabon. E, ao mesmo tempo, olhava para os outros meninos. Não sei por que, o fato é que, no primeiro e segundo dias de escola, tive orgulho, vaidade da banana. Olhava para os garotos, como se dissesse: “Eu tenho uma banana. Estou comendo uma banana”. Mas já o primeiro dia deu-me para perceber que havia toda uma fauna de merendas prodigiosas.
Lembro-me de que uma das minhas invejas mortais foi um garoto, já taludo. (Eu era miúdo e tinha vergonha da minha cabeça grande.) Trouxe a merenda embrulhada em papel de pão e amarrada com barbante. Desfez o nó do barbante e abriu o papel: — então, eu a vi. Era um sanduíche de pão com ovo. Pão com ovo. O menino pôs-se a comer. A gema escorria-lhe da boca como uma baba amarela. E outros garotos e garotas levavam sanduíches de goiabada, de queijo, de bife; havia uma menina que levava biscoitos numa latinha.
No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo. Se eu levasse um, havia de comê-lo no meio do recreio, com todos olhando; e deixaria a gema escorrer pelo queixo. Ao mesmo tempo que me envergonhava da banana, tinha-lhe pena. Pena da banana. De vez em quando, faltava dinheiro em casa. Banana custava um vintém. E eu ia para a escola sem merenda. Na hora do recreio, rodava pelo pátio, errante e perdido de fome.
Já contei o episódio das orelhas sujas. Mas não foi só. De vez em quando a professora me apontava como um exemplo: — “Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nelson”. As meninas me olhavam e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública. Até que, um dia, estava eu no meu banco, que era o último (eu me sentava embaixo de uma janela). E, de repente, ouço a voz da professora: — “Menino, não coça a cabeça!”. Eu devia estar entretido no meu sonho. A professora bate com a régua na mesa: — “Nelson! Não está me ouvindo? Levante-se! De castigo, já! Ali, fica ali! Aí!”.
Saí eu, lá do fundo, assombrado, e vim atravessando toda a classe. Dizia, chorando: — “Eu não ouvi a senhora me chamar!”. E ela: — “Menino insubordinado!”. Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela: — “Vira, vira! Fica de frente!”. Estou cara a cara com os outros. Ela ainda continua: “Parece que tem o bicho carpinteiro, esse menino!”. E, súbito, muda de tom. Pergunta: — “Por que é que você coça tanto a cabeça? Vem cá. Chega aqui. Pode vir”. Eu me chego. Ela está dizendo, quase doce: — “Está com medo? Eu não vou te fazer nada, Nelson. Vem, meu filho!”. E completa, rápida, cortante: — “Quero só examinar tua cabeça”. Paro: — “Não, não!”. Mas ela vem me buscar; sou arrastado: — “Fica quieto, fica quieto!”. Imobiliza a minha cabeça. Sinto seus dedos enfiados nos meus cabelos. E, de repente, o berro: — “Não disse?”. Vira-se para a classe: — “Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!”. Levou-me para a sala da diretora: — “Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!”. A diretora, de óculos e papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili.
(15/12/1967) No livro "O óbvio ululante"
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Lei, seca lei
Por Valter Heller Dani
As leis sempre existiram para frear aqueles indivíduos com a bússola moral defeituosa. Para o cidadão moralmente são, as leis são inúteis, pois ele viveria normalmente sem elas e sem tampouco prejudicar ninguém.
Urge
na atualidade a necessidade de se resolver problemas nevrálgicos com
medidas contundentes de curto prazo, o que, à primeira vista, parece
perfeitamente revestido de lógica. O que passa despercebido, como sempre
nessas tentativas, é que, em alguns casos, essas medidas contundentes
acabam por atingir aqueles que não precisavam ser atingidos e deixam
escapar aqueles que deveriam.
A
quantia enorme de mortes no trânsito a cada ano levou os brasileiros a
aceitar de forma passiva leis abusivas que, à primeira vista, parecem
ter vindo para diminuir o problema em foco, mas na verdade só servem
para diminuir ainda mais as liberdades individuais e pouco, muito pouco
resolvem aquilo que deveriam resolver. O álcool não é, de forma nenhuma,
o maior responsável por esse Vietnã anual das estradas brasileiras. Os
verdadeiros responsáveis são a imprudência, a negligência, e a
imperícia. A combinação destes fatores, sim, é assassina. Mas, quando
num caso de grande repercussão é constatada a presença do fator álcool,
isso rapidamente se aplica a todos os milhares de ocorrências como se
fizesse parte específica de cada uma.
Aparvalhados com esses dados, os
cidadãos passam a achar certo que lhe restrinjam ainda mais nos seus
direitos individuais, dos quais constam dirigir sem ser parado e não ser
obrigado a fazer testes sem ter dado motivo algum.
O aumento das mortes no trânsito nesse feriado de Natal em relação a 2011 foi grande em todo Brasil. Só no Sul 28 mortes (http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,3992216,499,21072,impressa.html)
sendo que não se flagrou um caso sequer de alcoolemia nos motoristas
envolvidos. Ao mesmo tempo, uma verdadeira enxurrada de motoristas que
estavam conduzindo seus veículos de forma segura, são autuados todos os
dias por uma ingerência mínima de álcool.
Acima
do Equador, onde estão as nações que gostamos de denominar como
‘primeiro mundo’, há muito tempo que álcool e direção, combinação que
pode causar danos a terceiros, são combatidos pelos governos sem leis
que proíbem a ingestão de álcool de forma tão radical como a adotada
aqui. Decididamente não há por lá a perseguição de todos os motoristas
de forma geral e sem exceções. Ora, por que um motorista que dirige
dentro das normas atuais regidas pelo Código Nacional de Trânsito, com
seu veículo, bem como sua documentação pessoal, em dia, deve ser
obrigado a fazer o teste de alcoolemia? Existem testes de natureza
extremamente simples que podem constatar se o motorista tem as condições
motoras e cognitivas necessárias para guiar. Por que não aplicar esses
testes?
As
forças de segurança deveriam direcionar seus recursos logísticos para
identificar o motorista embriagado, aquele que dirige em zigue-zague,
atropela, etc., que ao ser interpelado por um agente, não consegue
concatenar uma frase com sentido lógico. Sobre esse deve-se fazer pesar a
dureza da lei, não ao motorista que retorna para casa após ter jantado
com a família e ingerido uma quantidade de álcool que nem de longe pode
fazê-lo entrar no rol de motoristas irresponsáveis e que, como gostam de
rotular os juristas, estão em “dolo eventual”, uma vez que assumiram o
risco de matar alguém. Ora, quem após ingerir duas taças de vinho ou uma
cerveja, estará pondo a vida de terceiros em risco? É de uma
arbitrariedade ímpar tratar um motorista que ingeriu uma quantidade
civilizada de álcool como um perigoso risco à sociedade. Esse motorista
está fadado a sofrer uma sanção a partir do momento em que for parado
por um fiscal de trânsito, não há escapatória. Se fizer o teste e for
constatado que ingeriu, mesmo que muito pouco álcool, ficando dentro dos
limites aceitáveis em qualquer parte do hemisfério norte, vai ter a
carteira apreendida, pagará multa e responderá um processo
administrativo. Se por acaso recusar-se a fazer o teste vai ter a
carteira igualmente apreendida, pagará multa e responderá a processo.
Não há distinção no tratamento. Ou será tratado como um bêbado perigoso,
ou será tratado como um bêbado perigoso que não quer fazer o teste.
A
partir de agora, o agente da lei terá o poder de decidir, através de um
exame visual e quem sabe até através daqueles testes que já são
aplicados há décadas nos EUA, se o condutor está ou não alcoolizado.
Isso é ótimo. É uma boa maneira de driblar a negativa dos motoristas
realmente bêbados em fazer o teste. Nada de errado nisso. Mas por que o
agente de trânsito não pode usar esse mesmo discernimento, o que o faz
constatar que o indivíduo não tem condições de dirigir, para chegar à
conclusão de que um motorista que até tenha bebido um pouco, tem plenas
condições de chegar em casa sem botar a vida de ninguém em risco? O
mesmo poder que serve para declarar que um motorista não tem condições
de dirigir, obrigatoriamente tem que servir para atestar que um
motorista que embora tenha ingerido alguma quantidade de álcool, pode
dirigir, pois não demonstra estar com suas habilidades comprometidas.
O
bêbado irresponsável e perigoso, aquele para qual as leis foram feitas e
que nunca irá respeitá-las mesmo assim, justamente por ter a formação
moral degenerada, é conduzido a uma delegacia onde faz o famoso teste do
bafômetro que afere quantias estratosféricas de álcool, em seguida paga
uma fiança miserável e é prontamente liberado. Alguma coisa está errada
na estrutura e na aplicação dessa lei, que trata igualmente os
desiguais. Acaba se tornando uma lei seca, seca de conteúdo, seca
daquilo que mais se espera em qualquer pena que seja aplicada: a
proporcionalidade.
Fonte
Fonte
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Uma vida para doentes mentais
Por Luiz Felipe Pondé
"The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity"
(Willian Butler Yeats, The Seconde Coming )
Vivemos uma vida para doentes mentais. A Romênia já nos deu Cioran, Eliade, Ionesco. Agora nos dá Matéi Visniec, e a É Realizações traduziu várias de suas peças.
Entre elas, "A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais" nos dá a conhecer um medíocre escritor, convidado a contar a história do comunismo a doentes mentais dias antes da morte de Stálin.
Mas, para além do aspecto específico de uma reflexão sobre a conhecida praga do marxismo, chama atenção a reflexão sobre o mal que o autor faz em suas obras, principalmente na face contemporânea e histórica.
Os romenos são grandes "filósofos do mal". Tenho um profundo preconceito por quem acha que não existe o mal. Este tipo de antropólogo de boutique que confunde relativismo cultural com discussão moral séria.
Segundo o que nos dizia Cioran, na Romênia, ninguém se dava ao luxo de suspeitar da existência do mal, porque o fatalismo pessimista daquele povo era por demais "empírico": séculos de violência.
Segundo o autor, o mal em sistemas totalitários é fácil de ser identificado: a perda da liberdade, da privacidade, do horizonte, enfim, do tônus da vontade. Mas, na França em que vive desde seu exílio em 1987, o mal não é tão fácil de ser identificado. Para Visniec, aquilo que as ditaduras marxistas não conseguiram realizar plenamente, a formatação do homem para a condição de gado ou de doente mental, a "liberdade de consumo" das democracias ocidentais estão conseguindo. Este é o "nosso mal".
Como o leitor bem sabe, suspeito de toda crítica à sociedade de mercado quando feita por alguém que supõe conhecer uma melhor forma de vida e que afirma que esta melhor forma passa pelas ideias idiotas que alimenta em sua cabecinha intelectualmente provinciana e autoritária. Mas este não é o caso de Visniec.
Tendo vivido sob o regime totalitário marxista, ele carrega a marca de quem conheceu o mal na intimidade que só a forma banal do cotidiano traz.
Para as sociedade ocidentais funcionarem, temos que comprar. Para comprar no nível que a máquina econômica nos pede, temos que, mais do que comprar, consumir sempre e cada vez mais. Portanto, ao consumirmos "livremente" e com alegria, somos o gado pacificado que os regimes marxistas tentaram criar e não conseguiram. Um cidadão responsável neste mundo afirma sua integridade pagando a conta do Visa em dia.
Só alguém sem alma pode ver um shopping center no fim de semana e não ter vontade de vomitar. Um certo mal-estar com relação à sociedade de consumo é necessário se você quiser manter sua saúde mental em dia. A sociedade que consome sem um mínimo de mal-estar é uma sociedade de doentes mentais.
O problema é que não conhecemos nenhuma experiência histórica real na qual a liberdade política tenha sobrevivido ao extermínio da liberdade de iniciativa econômica.
Por outro lado, a vida humana é precária e tudo tem um custo real. Não conhecemos nenhuma forma de criar ciência, conforto, técnica, direitos humanos sem o uso de dinheiro. E assim voltamos ao consumo: o consumo garante a sobrevivência da economia no nível exigido pelo nosso desejo de conforto, ciência, técnica, direitos humanos.
Visniec se choca com uma Europa que tudo que parece querer é comprar. O Leste Europeu, quando ficou livre, gritou "Prada!". A liberdade conquistada foi para ir ao shopping no fim de semana e comprar toda essa gama de lixo que se compra, com a "boca cheia de dentes esperando a morte chegar...".
Nenhum intelectual parece entender que somos banais como doentes mentais.
Visniec pensa que temos que buscar novas utopias. O interessante é lembrar que a felicidade representada pelo "sou livre para comprar" também foi uma utopia na Europa. O euro é o nome dessa utopia.
Melhor abrirmos mão da ideia de utopia. Quanto mais rápido desistirmos de um mundo melhor, mais rápido perceberemos que a consciência, de fato, é um ônus.
E também, como dizia Yeats, "os melhores não têm convicções enquanto que os piores estão sempre cheios de intensidade passional". O desafio hoje é pensar sem utopias.
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